segunda-feira

A crise hídrica perfeita

São cinco fatores fundamentais que geram a atual crise hídrica brasileira. 

O primeiro, alertado por vários cientistas, é a possível ruptura no ciclo de nossas águas. Em resumo, grande parte delas tem origem na evapotranspiração da floresta amazônica, sendo carreada para o sul, centro-oeste e sudeste pelos rios voadores. Com a derrubada da floresta amazônica os rios voadores estão perdendo força. 
Completa essa ruptura o desmatamento do Cerrado, que tem como consequência sua impermeabilização. O Cerrado não está na origem do ciclo de nossas águas, mas tem o papel fundamental de armazená-las em tempos de chuva e depois liberá-las para nossas bacias hidrográficas em tempos de estiagem. É o que os técnicos chamam de vazão de base. Ela garantia a perenidade de nossos rios, a exemplo do São Francisco. Hoje porém, com menos absorção, não garante mais. 

O segundo fator é a escassez qualitativa. Destruídos, poluídos, muitas vezes os mananciais estão ao lado de nossas casas, cortando nossas cidades, mas impróprios para o consumo humano e doméstico. O exemplo mais clássico são as águas do Tietê do Pinheiros em São Paulo. Mas podemos estender essa lógica a todos os rios que atravessam centros urbanos, desde os pequenos até os grandes. 

O terceiro fator é a expansão do uso da água para fins econômicos, particularmente a agricultura irrigada. Hoje temos 6 milhões de hectares irrigados e eles são responsáveis por 72% da água doce consumida no Brasil. Entretanto, estudiosos dizem que temos potencial para mais 29 milhões de hectares – outros falam em 60 milhões -, sobretudo no território do agronegócio chamado de MATOPIBA, iniciais de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. 

O quarto fator é o hidronegócio. A mercantilização da água despertou cobiça no mundo inteiro em seus múltiplos usos, particularmente dos serviços de abastecimento urbano e na água envazada. Quando um bem essencial à vida como a água é apropriado privadamente e mercantilizado, passa a ser gerido pelas regras absolutistas do mercado. A consequência é o preço exorbitante da água para populações mais pobres e o lucro soberbo das empresas que adquirem esses serviços. O que aconteceu em Itu e nas periferias da grande São Paulo ilustram esse fator de forma cabal. 

Finalmente, o descuido. Não temos nenhuma política de educação, ética do cuidado com nossos mananciais ou a utilização de nossas águas. Mesmo quando a questão é abordada, simplesmente prefere-se transferir o problema para os consumidores domésticos, exatamente a parte menos influente na crise. 
A ruptura do ciclo das águas + escassez qualitativa + expansão da demanda + hidronegócio – cuidado. Eis a equação da crise perfeita e perversa.


Autor(a): Roberto Malvezzi (Gogó)-Escritor, compositor e músico 


Plantando organização e colhendo autonomia e resistência: os quintais e a luta das mulheres de Palmares pelo seu território





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“Aqui quem bota pra frente são as mulheres” é o que diz Natália Medeiros, agricultora do Grupo de Mulheres de Palmares. Não é à toa a afirmação. As mulheres são as responsáveis pela produção nos quintais. Natália, por exemplo, mora sozinha e, em seu quintal, produz as hortaliças que vende para feira da cidade e de onde tira a sua própria renda. Um pouco mais a frente mora Maria Antônia, conhecida como Branca que, diferente de Natália, não vende a produção de seu quintal, mas dele tira frutas e hortaliças para o seu consumo e de sua família: “em vez de tá comprando, eu já tenho em casa e isso economiza muito!”. No quintal de Branca tem: banana, caju, manga, tamarindo, limão, laranja, côco, acerola, pinha, cajarana, siriguela, graviola, hortaliças diversas e plantas ornamentais como rosas e palmeiras que ela ama.
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Natália e Branca são do grupo de mulheres da Agrovila Palmares, Apodi/RN. Palmares nasceu a partir de um projeto de assentamento modelo idealizado no final dos anos 90 pela Força Sindical e Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo que, chegando à Apodi, fez um processo de seleção de 30 famílias e capacitação das mesmas. Das 30, 28 famílias foram aprovadas para receber os benefícios previstos e em maio de 2000, cada uma dessas famílias recebeu uma casa, com televisão e bicicleta, em uma estrutura com água, luz, transporte escolar e duas matrizes de caprinos”, lembra Nova. Com o tempo, por falta de recursos, o sindicato parou de investir no assentamento e em 2006 doou as casas e um quintal de 100 metros para as famílias e as terras coletivas para a associação da comunidade.
A partir da associação e do trabalho conjunto com a Comissão de Mulheres do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi – STTR, formou-se o Grupo de Mulheres de Palmares em 2006 e, neste mesmo ano, o Centro Feminista passou a atuar diretamente na comunidade com assistência técnica para produções nos quintais, formação feminista e fortalecimento da auto-organização.
O grupo Mulheres de Palmares conta com a participação ativa de 16 mulheres da comunidade que se reúnem mensalmente para debates e articulação da participação nos espaços de discussão e tomadas de decisões. Foi através da participação no STTR que, em 2011, as mulheres souberam que o projeto do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca – DNOCS desapropriaria mais de 13 mil hectares de terras do lado potiguar da Chapada, onde vivem mais de 800 famílias, para dar lugar à instalação do Projeto de Irrigação Santa Cruz do Apodi, evidenciando uma política de irrigação em benefício da expansão do agronegócio.
As mulheres de Palmares fizeram o enfrentamento direto contra a tomada de seu território pelo projeto do DNOCS e em defesa da agroecologia em 2012/2013. Os atos de rua que contaram com mais de 3 mil mulheres e campanha internacional nas redes sociais junto ao movimento Marcha Mundial das Mulheres mostraram a força da auto-organização da qual as mulheres de Palmares protagonizaram.
Para Branca, a união e a oportunidade de fazer a luta também fora da comunidade são motivos de alegria e pelos quais a fazem continuar firme e forte no grupo. Natália afirma:“depois que entrei no grupo, eu aprendi muita coisa com as outras mulheres. Pra mim, a melhor coisa de morar em Palmares, além da água, é as mulheres e a nossa organização que faz a gente ser mais independente”. A experiência das mulheres de Palmares é uma prova do quanto a auto-organização contribui para defesa dos territórios, resistência nas lutas por direitos e a autonomia das mulheres.
*Fotos de Wigna Ribeiro
Fonte: Centro Feminista 8 de Março

sexta-feira

12 anos sem a presença física de Ronaldo Valência




Hoje estar fazendo 12 anos que o nosso amigo, companheiro e um grande exemplo de dedicação e luta pelos mais humildes, Ronaldo Valência, se foi de forma trágica, e prematura, fica registrado em nosso blog a nossa homenagem e lembranças de todos aqueles que conviveram e lutaram juntos com ele na construção de dias melhores para todos.


quinta-feira

O golpe parlamentar como assalto ao bem comum


Leonardo Boff

Um dos efeitos mais perversos do golpe parlamentar, destituindo com razões juridicamente questionáveis pelos juristas mais conceituados de nosso país e também do exterior, foi impor um projeto econômico-social de ajustes e de modificações legais que significam um assalto ao já combalido bem comum. O golpe foi promovido pelas oligarquias endinheiradas e anti-nacionais que usaram um parlamento de fazer vergonha por sua ausência de ética e de sentido nacional, que por ele pretendem drenar para seu proveito a maior fatia da riqueza nacional. Isso foi denunciado por nomes notáveis como Luiz Alberto Moniz Bandeira, Jessé Souza, Bresser Pereira, entre outros.

Está em curso um desmonte da nação. Isto significa a implantação de um neoliberalismo ultraconservador e predatório que praticamente anula as conquistas sociais em favor de milhões de pobres e miseráveis, tirando-lhes direitos com referencia ao salário, ao regime de trabalho e das aposentadorias além de reduzir e até liquidar com projetos fundamentais como a Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, o FIES e outros institutos que permitiam o acesso aos filhos e filhas da pobreza ao estudo técnico ou superior.

Mais que tudo, começou-se a leiloar bens coletivos como partes da Petrobrás e a colocação à venda de terras nacionais. A privatização significa sempre uma diminuição do bem de interesse geral que passa às mãos do interesse particular. Atacam-se ao que se chama hoje de “direitos de solidariedade” que submete os interesses particulares ao interesses coletivos e comuns.

Estão sendo erodidas as duas pilastras fundamentais que historicamente construíram o bem comum: a participação dos cidadãos (cidadania ativa) e a cooperação de todos. Em seu lugar, a atual ordem imposta pelos que perpetraram o golpe, enfatiza as noções de rentabilidade, de flexibilização, de adaptação e de competividade. A liberdade do cidadão é substituída pela liberdade das forças do mercado, o bem comum, pelo bem particular e a cooperação, pela competitividade.

A participação e a cooperação asseguravam a base do interesse e do comum. Negados esses valores, a existência de cada um não está mais socialmente garantida nem seus direitos afiançados. Logo, cada um se sente constrangido o garantir o seu. Assim surge um individualismo avassalador, acolitado por ondas de ódio, de homofobia, de machismo e de todo tipo de discriminações.

O propósito dos atuais gestores, já reconhecidos como incompetentes, alguns até imbecilizados é: o mercado tem que ganhar e a sociedade deve perder. Ingenuamente creem ainda que é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é por que vamos construir o bem comum? Deslegitimou-se o bem-estar social e o bem comum foi enviado ao limbo.
Mas cabe denunciar: quanto mais se privatiza mais se legitima o interesse particular em detrimento do interesse geral além de enfraquecer o Estado, o gerenciador do interesse geral. Estão nos impondo um killer capitalismo. Quanto de perversidade social e de barbárie vão aguentar os movimentos sociais, aqueles que da pobreza estão sendo jogados para a miséria, os partidos de raiz popular e a inteligentzia brasileira com sentido de nação e de soberania de nosso pais?

Esclareçamos o conceito de bem comum. No plano infra-estrutural o bem comum é o acesso justo de todos aos bens comuns básicos como à alimentação, à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à comunicação. No plano social é a possibilidade de levar uma vida material e humana satisfatória na dignidade e na liberdade num ambiente de convivência pacífica.
Pelo fato de estar sendo desmantelado pela atual ordem injusta, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação e não à competição e articular todas as forças comprometidas com o interesse geral a resistir, a pressionar e a ganhar as ruas.

Por outro lado, o bem comum não pode ser concebido antropocentricamente. Hoje desenvolveu-se a consciência da interdependência de todos os seres com todos e com o meio no qual vivemos. Nós enquanto humanos, somos um elo, embora singular, da comunidade de vida e responsáveis pelo bem comum também desta comunidade de vida. Não podemos vender nossas terras nem deixar de delimitar os territórios indígenas, os donos originários de nosso país nem descuidar do desmatamento desenfreado da Amazônia como está ocorrendo agora.

Nós humanos, possuímos os mesmos constituintes físico-químicos com os quais se constrói o código genético de todo o vivente. Dai se deriva um parentesco objetivo entre todos os seres vivos como o tem enfatizado o Papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral. Por isso cuidar e defender a natureza é cuidar e defender a nós mesmos, pois somos parte dela. Em razão desta compreensão o bem comum não pode ser apenas humano, mas de toda a comunidade terrenal e biótica com quem compartimos a vida e o destino.

Cooperação se reforça com mais cooperação, pois aqui reside a seiva secreta que alimenta e revigora permanentemente o bem-comum, atacado pelas forças que ocuparam o Estado e seus aparelhos no interesse de poucos contra o bem comum de todos os demais.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: De onde vem? o Universo, a Terra, a vida, o espírito, Mar de Ideias, Rio.



Temer nomeia grileiro para diretoria do Incra


Clóvis Figueiredo Cardoso é apontado pelo MP como parte de um esquema que fraudava a desapropriação de terras

Revista Fórum

O novo diretor de obtenção de terras do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e presidente do PMDB de Cuiabá, Clóvis Figueiredo Cardoso, foi apontado pelo Ministério Público como parte de um esquema que fraudava a desapropriação de terras. É justamente a área que estará sob comando dele a partir da posse, na 3ª feira (10.jan). A nomeação é assinada pelo presidente Michel Temer e pelo ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha.

O novo diretor do Incra, que se tornou réu em 2008 por supostas irregularidades cometidas em sua 1ª passagem pelo órgão, diz que a ação prescreveu sem que o mérito do caso fosse julgado pela Justiça de Mato Grosso.

Novo diretor do Incra se tornou réu em 2008 por supostas irregularidades cometidas em sua 1ª passagem pelo órgão / Reprodução/ Hipernotícias

Cardoso é advogado e presidente do PMDB de Cuiabá (MT). Ele assume a Diretoria de Obtenção de Terras e Implantação de Projetos de Assentamento do Incra. A nomeação foi publicada na edição de 2ª feira (9.jan) do Diário Oficial da União.

O escândalo ficou conhecido no Mato Grosso como “a farra com terras da União”. Ao todo, 30 pessoas foram condenadas no caso, mas não Cardoso.
Pelo menos 7 processos de desapropriação de fazendas para a reforma agrária foram investigados à época.
Em 1 dos casos, o esquema consistiu em fraudar os limites da fazenda que seria desapropriada, para abranger também terras devolutas. Ou seja, de propriedade da União.
Em outro caso, terras desapropriadas pelo Incra foram depois vendidas a particulares por valores muito abaixo do que realmente valiam, segundo o Ministério Público.
A nomeação de Cardoso é uma indicação do deputado federal Carlos Bezerra (PMDB-MT), conforme a mídia local.
O Incra é o órgão federal responsável por desapropriar terras e destiná-las ao assentamento de pequenos agricultores, processo conhecido como reforma agrária. Foi criado em 1970 e está presente em todo o país por meio de 30 superintendências regionais. O Incra também responde pela organização e assistência aos assentamentos rurais.
Outro lado
Procurado pela reportagem, o novo diretor do Incra, Cardoso, disse apenas que a ação não teve o mérito julgado e prescreveu.
O Incra disse que a nomeação de Cardoso foi aprovada pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), responsável por conferir os antecedentes de indicados a cargos públicos.
“Não há obstáculos à nomeação de Cardoso para o cargo. O seu nome passou pela análise da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foi aprovado e encaminhado à Casa Civil”, disse o órgão.
O Incra também informa quais são as atribuições da diretoria que será ocupada por Cardoso:
“O Regimento interno do Incra, em seu Artigo 79, estabelece que cabe à Diretoria de Obtenção de Terras e Implantação de Projetos de Assentamento (DT) ‘(…) coordenar, regulamentar, orientar e supervisionar as atividades de aquisição, desapropriação e incorporação de terras ao patrimônio do Incra; as atividades de seleção de famílias, promoção do acesso à terra e criação de projetos de reforma agrária e aproveitamento sustentável do meio ambiente e dos recursos naturais nos projetos de assentamento; assim como propor, supervisionar, controlar e acompanhar a implementação de convênios, contratos e instrumentos congêneres relativos a sua área de competência.”

Via: Brasil de Fato

20 grupos estrangeiros têm 3 milhões de ha de terras no Brasil

Entrada da JBS na Austrália e de várias transnacionais no território brasileiro estão em relatório da Grain sobre mega aquisições globais

Por Alceu Luís Castilho

Pelo mundo, mais de 30 milhões de hectares foram adquiridos por apenas 490 proprietários. Os dados da organização Grain referem-se ao ano de 2016 e contam – ainda que de maneira incompleta – a história recente do land grabbing, um fenômeno mundial que pode ser definido como a mega aquisição de terras por investidores estrangeiros. Grandes corporações, fundos. A Grain avisa: essa tendência continua crescendo.

E o Brasil é um dos principais protagonistas. Principalmente como território dessas aquisições. Mas já aparece também como comprador. O relatório da Grain inclui entre os destaques pelo mundo a expansão do grupo JBS na Austrália. A empresa já tem cinco estabelecimentos com 10 mil hectares, com produção anual de 330 mil cabeças de gado. Somente a JBS australiana exporta para mais de 80 países – o que ilustra bem a escala global do land grabbing.







Trapiá e Queimadas: arte, organização das mulheres e o direito sobre as carnaubeiras


Trapiá é uma árvore nativa da caatinga nordestina. O trapiazeiro tem uma folhagem muito densa e consegue manter-se verde mesmo em condições críticas de falta d’água. Assim são as mulheres do grupo ArtPalha da comunidade Trapiá II, de Apodi, RN. Na região não tem mais trapiazeiro e nem outras árvores que deveriam existir, é o que denuncia a comunidade vizinha chamada de Queimadas: “Faziam muito desmatamento aqui e por isso o nome da comunidade ficou “Queimadas”. Em Queimadas, o grupo de Mulheres do Arte e Vida também produzem artesanato em palha para somar na renda.

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Ambas as comunidades sofrem com a escassez da água e contam com vastos carnaubais. E é das carnaubeiras que vêm as palhas do artesanato das mulheres que, organizadas, produzem, comercializam o artesanato que une feminismo, autonomia financeira e a luta por um mundo com igualdade.
O trabalho em grupo e o feminismo:
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Trindade, Marciane, Geiza, Maria Antônia, Joana e Francisca que é mais conhecida como Tica, tocam o ArtPalha desde 2002 quando, a partir das reuniões com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi, participaram de um curso para trabalhar a partir das potencialidades da comunidade: “Como aqui a gente tem pouca água e muita carnaúba e a gente já fazia chapéus, bolsas e vassouras de palha, fomos aproveitando as capacitações, aumentando a produção e a organização de mulheres. Em 2004, pelo Programa de Desenvolvimento Social – PDS, pudemos comprar material e equipamentos e construímos a Casa do Artesanato do nosso grupo de mulheres”.
Tica, do Art em palha, diz que: “fizemos muitas capacitações sobre preço, sobre as feiras, economia solidária, trocas de experiências, de produtos, sobre a convivência com o semiárido. Meu marido mesmo dizia que o nosso artesanato não ia dar em nada. Mas nosso artesanato e nossa união nos levam longe. E nós já exportamos produtos pra fora, até pra França”.
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Maria Vanderci conhecida como Xandoca, Maria Valdirene, Valda, dona Raimunda, Eunice, Girleide e Madalena são o Arte e Vida desde 2010. Através da assistência técnica do SEAPAC formaram o grupo de mulheres artesãs de Queimadas. Antes trabalhavam na sede do grupo de jovens e agora nas próprias casas, mas sempre trabalham juntas. Xandoca diz que “achava que era difícil, mas fui vendo e aprendi. Eu continuo fazendo arte em palha porque gosto e ajuda bastante na renda”. Maria Valdirene conta que “a gente trabalha nos quintais também mas é muito difícil. Se perenizasse o rio (Umari), a gente teria água pra plantar”.
Algo que se destaca visivelmente na comunidade de Queimadas é a praça colorida que dona Raimunda conta: “foi construída pelos moradores. Com a ajuda do padre Theodoro, não só a praça como a igreja e a sede da associação daqui também”.
Sobre o modo de trabalho dos grupos, Tica explica: “Ninguém faz nada sozinha. Um chapéu desses passa pelas mãos de tudinha. A gente trabalha numa dinâmica de unidade e divisão de tarefas”. E continua: “com o grupo de mulheres, aprendemos a ter confiança nas companheiras e sobre direitos iguais: quando a gente vai pro roçado não é ajuda, é trabalho, é ser agricultora, por exemplo. A gente aprendeu a se libertar, a não ser só dona de casa”. Ao que Xandoca completa: “Quando a gente está juntas é uma terapia. Nosso grupo de mulheres é uma escola melhor do que tá sentada na sala de aula”.
Carnaubeiras para quem?
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 A carnaubeira é uma espécie típica do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, que aparece em terrenos alagáveis ou agrupa-se nas várzeas de rios. Como tudo dessa palmeira pode ser aproveitado (tronco, folhas, fruto, palmito, raízes e as sementes), é conhecida como “árvore da providência”. O mais importante fator de renda para os extrativistas é a cera extraída das folhas, que é utilizada na fabricação de cosméticos, ceras industriais e domésticas, graxas, lubrificantes, discos, filmes fotográficos, papel carbono e outras aplicações.
A colheita da palha que é feita uma vez por ano, nos meses de outubro, novembro e dezembro, acontece em carnaubeiras dentro de terrenos privados: “a gente faz uma troca com os donos dos terrenos: tiramos as palhas e devolvemos pra eles o pó”. Para isso, as mulheres precisam sair de casa por volta das 4h da madrugada e ter todo o cuidado para não perder o pó.
Nas regiões de Tocantins, Pará, Piauí e Maranhão, as quebradeiras de coco de babaçu precisam se sujeitar a muitas adversidades para ter o direito de quebrar coco. A realidade das artesãs de Apodi não é diferente. Para ter as folhas de carnaúbas, as mulheres acabam se responsabilizando por um serviço a mais: “A gente não tem como comprar com dinheiro, né? Então a gente compra com trabalho juntando o pó das palhas e devolvendo pro dono”. As quebradeiras lutam pelo livre acesso aos babaçuais, mas a discussão do livre acesso às carnaubeiras ainda não chegou pela região. Assim como as mulheres avançaram na auto-organização e na autonomia, é preciso avançar na luta contra a exploração de seu trabalho e de suas vidas.

quarta-feira

De 1 milhão de mortos para 1 milhão de cisternas

Roberto Malvezzi (Gogó)
Divulgação/MDSA
Na seca de 82 a estimativa foi que pelo menos 1 milhão de Nordestinos ainda morreram de inanição, isto é, fome ou sede. Nessa seca que vem de 2012 até 2016, não há registros de mortes por inanição, nem o fenômeno das grandes migrações, nem frentes de emergência e muito menos saques nas cidades do sertão.
O IX ENCONASA – Encontro da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) -, acontecido entre 21 e 25 de novembro, em Mossoró, constatou que passamos de 1 milhão de mortos para 1 milhão de cisternas. Além do mais, houve 200 mil replicações de tecnologias para armazenar água para produção. Enquanto as cidades passam grande necessidade no Semiárido – por falta das adutoras – e o gado da “classe média rural Nordestina” morre por falta de água e ração, o povo que sempre foi vítima das tragédias humanitárias das secas está bem melhor que os demais. Aprendeu com a captação da água de chuva, o manejo da caatinga, a criação de animais resistentes à seca, assim por diante.
Mas, o governo atual voltou com o discurso do “combate à seca”, eliminou os programas de convivência com o Semiárido e despejou novamente os recursos no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DENOCS), sob comando do PMDB. O raciocínio dispensa comentários e o redirecionamento das verbas o mesmo.
Os tempos brasileiros são de retrocesso generalizado, o Nordeste não iria ficar de fora. Foi-se o tempo dos investimentos por aqui, ainda que tantas vezes equivocados, mas parte foi corretamente direcionada ao novo paradigma da convivência, produziu frutos e garantiu vidas.
Foi pouco dinheiro, prazo de 15 anos, mas suficientes para melhorar a vida do povo do que em 500 anos das oligarquias.
Sabemos que quem está no poder não tem interesse algum no povo do Semiárido. O jogo de compadrio entre o STF e Renan, Moro e Aécio, Temer e coronéis é tipo sexo explícito. Não há o que esconder.
Esse governo tem cara de 200 anos atrás, mas nós vamos manter vivo o paradigma da convivência com o Semiárido. Quem já nasceu velho, não tem futuro. A convivência é o novo, portanto, o presente e o futuro.

Primeira reunião Fórum da Agricultura Familiar de Apodi em 2017 é marcada por boa participação.

O Fórum da Agricultura Familiar de Apodi/RN (FOAFAP)  reuniu na manhã desta quarta-feira (11), com dezenas de presidentes de associações, lideranças comunitárias, entidades que atuam no meio rural apodiense. Também estiveram presentes representantes do poder legislativo de do município de Apodi/RN.

O FOAFAP é um espaço representativo que reuni instituições, organizações que atuam no meio rural de Apodi e região, onde o Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Apodi/RN contribui com a organização da coordenação de tal.

Como palco de importantes temas para o publico da agricultura familiar, o espaço tem oportunizado o debate de pautas importantíssimas para o desenvolvimento do meio rural de Apodi/RN. Na reunião de hoje as principais pautas decorreram sobre:
A Assembleia Anual do STTR que vai ocorrer no próximo dia 28 de Janeiro de 2017;
Linhas de Créditos, regras de negociações de dividas rurais apresentadas pelo Banco do Nordeste e Banco do Brasil;
Garantia Safra ano 2016/2017 que tratou das inscrições realizadas pelos agricultores de Apodi assim como o processo de homologação do CMDS da listagem dos Beneficiários.

As reuniões do fórum ocorrem toda segunda quarta feira de cada mês, a partir das 9 horas da manhã no auditório do STTR de Apodi/RN. 

Mais fotos:










   


terça-feira

STTR de Apodi/RN sorteará prêmios entre sócios e sócias.

O Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Apodi, mais uma vez sorteará prêmios entre seus sócios e sócias, em dias, o sorteio como de costume ocorrerá durante a assembleia anual, que será realizada no dia 28 de janeiro de 2017. 

Esse ano o sindicato estará sorteando uma: TV 32” polegadas, uma GELADEIRA  e uma MOTO CG 160 FAN. Para participar basta está em dias com suas contribuições sindicais. 

A direção do STTR de Apodi/RN deseja boa sorte à todos sócios e sócias.