Desde o apagão de 2002 no governo Fernando Henrique, ficou provado
que o sistema brasileiro de geração de energia a partir da água não se
sustenta mais. Modificamos o regime das chuvas, os volumes de água
reservados estão sujeitos a estiagens mais prolongadas e mais constantes
todos os anos. Tanto é que o nível de 85% dos reservatórios brasileiros
em janeiro de 2015 é considerado mais baixo que o do apagão de 2002.
Não é por acaso que temos problemas de abastecimento de água até para
consumo humano e industrial, quanto mais para gerar energia.
O Brasil insiste em construir hidrelétricas para resolver seus
problemas de energia. Hoje o cidadão comum tem claro que quem impõe a
agenda de obras no Brasil são as empreiteiras. Elas financiam as
eleições e depois recebem o cêntuplo com os investimentos em grandes
obras. As hidrelétricas estão entre as maiores obras desse país.
Nosso desafio não é construir mais barragens, mas ter água para
locupleta-las. Na data que escrevo esse texto o nível dos reservatórios
está em média nacional girando em 20%. Portanto, há uma ociosidade
(déficit) de 80%. Com 50% dessa capacidade locupletada o governo e
empresas do ramo estariam rindo à toa. Portanto, não é mais uma Belo
Monte, uma Teles Pires, ou outra barragem qualquer que vai resolver esse
desafio. Nosso problema fundamental está nas águas, não na capacidade
instalada dos reservatórios.
Quem quiser a prova é só visitar a barragem de Xingó, no Baixo São
Francisco. Na parede da barragem está a infraestrutura para se instalar
11 turbinas, mas só seis estão instaladas. Quando se pergunta aos
técnicos porque não instalar as demais, ao contrário de construir novas
barragens, a resposta é simples: não temos água para acionar onze
turbinas.
Certas reportagens insistem que se outras obras estivessem feitas –
Belo Monte, Teles Pires, etc. –, nós não estaríamos passando pelo
problema da crise energética, originada pela crise hídrica. Portanto,
para esse setor midiático, é no atraso das obras, na dificuldade dos
licenciamentos ambientais, na inoperância das empreiteiras que reside o
problema.
O fato é que, se hoje temos 22% de nossa matriz energética baseada
nas termoelétricas, é simplesmente porque nossas hidrelétricas já não
são mais capazes de garantir a energia que esse modelo de
desenvolvimento demanda. Portanto, vamos construir todas as
hidrelétricas da Amazônia, vamos devastar nossos últimos rios, vamos
remover nossas populações, mas vamos ter que construir novas
termoelétricas para garantir energia, cada vez mais cara – cortamos o
consumo e a conta do mês só aumenta -, cada vez mais escassa.
A crise hídrica tem consequências para o abastecimento humano, a
dessedentação dos animais (vide Nordeste e região do Rio de Janeiro),
indústria, agricultura, a geração de energia e todos os múltiplos usos
da água. Será que nem por amor à galinha dos ovos de ouro somos capazes
de rever os rumos predadores de nossa civilização?
Enquanto isso o sol do Nordeste brilha doze horas por dia e os ventos sopram forte na costa e no sertão nordestino.
(*) Artigo publicado originalmente na página da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
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