As pesquisas são unânimes em apontar a contaminação de solos, rios e demais reservas de água.
Paulo Kliass
O
estímulo prioritário pelo modelo do agronegócio, que os sucessivos
governos têm reforçado ao longo dos anos, só produz malefícios. Esse
sistema implica um conjunto de consequências negativas para o Brasil e
para a maioria de nossa população: propriedades imensas, expulsão das
populações locais em função da mecanização, prática da monocultura,
extinção das culturas tradicionais, concentração da renda e da riqueza,
entre tantos outros.
Um dos aspectos mais perversos
dessa opção é a intensificação do uso de agrotóxicos na atividade
agrícola. O crescimento da aplicação indiscriminada desses venenos
provoca danos permanentes para a saúde das pessoas e para o meio
ambiente. As pesquisas são unânimes em apontar a contaminação de solos,
rios e demais reservas de água. Por outro lado, cada vez mais são
reveladas novas doenças para os trabalhadores diretamente envolvidos,
bem como quadros patológicos graves para o conjunto da população – atual
e futura – pela ingestão dos alimentos derivados desse tipo de
produção.
O Brasil é campeão global no uso de
agrotóxicos: quase 20% do total consumido no mundo são utilizados em
nosso território. Desde 2008 lideramos a lista dos países que mais
aplicam pesticidas, herbicidas e afins em suas atividades agropecuárias.
Para o presente ano, a previsão é de um consumo de quase 1 milhão de
toneladas desses produtos, equivalente a uma movimentação aproximada de 8
bilhões dólares. Isso corresponde a um índice alarmante de 5 kg desse
tipo de droga por habitante a cada ano.
A estrutura
de mercado de tais produtos é marcada pelo predomínio de grandes
corporações multinacionais e o poder empresarial é altamente
concentrado. Apenas 13 empresas controlam quase 90% da oferta mundial de
agrotóxicos. Com essa enorme capacidade de influenciar governos, o
setor consegue manter a autorização oficial dos órgãos públicos
reguladores para produtos comprovadamente perigosos. Assim, o Brasil
permite a produção e comercialização de substâncias proibidas há muito
tempo nos Estados Unidos, Europa, Canadá, Japão e mesmo na China.
Trata-se
de combinados químicos que as pesquisas comprovaram serem causadores de
diversos tipos de câncer, distúrbios neurológicos, sequelas
psiquiátricas, além de serem transmitidos pelo aleitamento materno.
Apesar das matrizes das grandes transnacionais estarem proibidas de
produzir tais venenos, aqui em solo tupiniquim o governo faz vista
grossa para as atividades de suas filiais. Além das tragédias
individuais e sociais provocadas por esse tipo de irresponsabilidade, o
custo que o conjunto da sociedade incorre também é elevado. Estima-se
que, para cada unidade monetária consumida em agrotóxico, o Estado seja
obrigado a gastar 1,28 no futuro com gastos para tratar a saúde
comprometida.
Não contentes com essa
permissividade, as empresas são ainda beneficiadas com incentivos
tributários para que essa atividade, já condenada em todo o mundo, seja
aqui ainda mais rentável. O Brasil oferece estímulos às indústrias, em
termos dos impostos envolvidos no setor: isenção total de IPI federal e
redução de até 60% no ICMS dos Estados. As denúncias são públicas e
amplamente conhecidas no que se refere aos danos provocados pelos
agrotóxicos. Porém, os órgãos públicos que deveriam zelar pelo bem
público e pelas condições de saúde e do meio-ambiente parecem se
preocupar mais com os interesses das empresas do que com os interesses
do país e da maioria de nossa população.
O caso
recente do “chumbinho”, presente em pesticida fabricado pela Bayer,
esteve por vários anos se arrastando em reuniões e mais reuniões sem que
nenhuma proibição fosse realizada. Apesar da comprovação dos malefícios
e dos quase 5 mil casos anuais de envenenamento causados pelo produto,
só agora no mês de novembro a Anvisa resolveu proibir sua
comercialização de forma definitiva.
Fonte: Site do Brasil de Fato
Nenhum comentário:
Postar um comentário