quarta-feira

A silenciosa praga das lavouras.

Regiões agrícolas com forte uso de agrotóxicos têm mais suicídios e mortes por câncer.


A reportagem é de Carla Rocha, Fábio Vasconcellos Natanael Damasceno e publicado pelo jornal O Globo, 03-06-2012.



José Andrade teve câncer de pele no nariz e num braço, amputou um dedo e sofre de depressão. Com problemas de surdez, vive com a irmã Maria Geralda. Eles já perderam dois irmãos, vítimas de câncer.



Veneno em doses diárias



A s lesões vermelhas no rosto, que vez ou outra se espalhavam para braços e pernas, não o fizeram parar de roçar a lavoura. Era seu ofício desde os 15 anos, de sol a sol. Por anos, conviveu com crises, mais ou menos intensas. Teve que amputar o dedo indicador direito, que encaroçou como uma espiga de milho. Para as lesões num braço, quase no osso, precisou fazer enxertos de pele. A audição, frágil, evoluiu para uma quase surdez. Vinte e cinco anos depois de os sintomas surgirem, mais de 40 dias de internação e biópsias, José de Andrade, de 77 anos, descobriu que podia ser mais uma vítima do uso indiscriminado de agrotóxicos. Era só ele e a enxada, sem capa ou máscara. Às vezes, até sem galochas.



- A gente macerava o veneno, que era em pó, com a mão, antes de misturar na água. Depois sentava para almoçar. Durante 30 anos usei os produtos sem proteção. Pegava sol, chuva, tudo. Aplicava contra o vento; saía todo molhado. Não sabia do risco - conta o agricultor, que estudou muito pouco e não entendia as instruções do rótulo dos produtos.



Um levantamento do Globo com base em dados do Datasus e do IBGE revela que o Rio tem altas taxas de mortalidade por câncer e suicídio - que pesquisas científicas sugerem ter associação com o uso de agrotóxicos - em três regiões agrícolas. O mapa de ocorrências desses dois problemas coincide com as manchas de produtividade de tomate, escolhido para a pesquisa por ser uma das principais culturas do estado e ter apresentado alto índice de resíduos tóxicos nas últimas análises.



O Centro-Sul aparece na frente em mortes causadas por neoplasias, com 133 casos por cem mil habitantes (22% acima da média, que é de 109); depois vem a Região Serrana, com 125 (14%); e o Noroeste Fluminense com 117 (7%). Um detalhe salta das estatísticas: no Centro-Sul, onde estão grandes produtores de tomate, como Paty do Alferes, os índices são acentuados entre adultos de 40 a 49 anos. Nessa região, os índices estão mais de 52% acima da média do estado.



O suicídio é mais frequente no campo. Enquanto a taxa na Região Metropolitana é de 1,58 caso por cem mil habitantes, no Noroeste Fluminense chega a 5,89 (51% acima da média, que é de 3,9), a mais alta. Na Região Serrana, são 5,25 casos por cem mil (34%); e no Centro-Sul, 5,50 (41%).



No Brasil, agrotóxico movimenta US$ 7 bi



Maior consumidor mundial de venenos agrícolas, que, em 2010, movimentaram US$ 7,3 bilhões, o Brasil responde hoje por 10% do mercado internacional (mais de 900 mil toneladas por ano). As cifras são também de um mercado recheado de polêmicas, como a dos possíveis efeitos desses produtos, o que divide fabricantes e pesquisadores. Para entender a realidade que está por trás desses números, repórteres do Globo foram buscar a história contada pelos próprios agricultores.

O que José de Andrade relata é uma rotina marcada por uma mistura de necessidade extrema e ignorância absoluta sobre os efeitos prejudiciais dos agrotóxicos. Aos 40 anos, sem qualquer explicação para uma série de distúrbios psicológicos, ele saiu de seu pequeno sítio em Secretário, distrito de Petrópolis, e foi caminhando até Santana do Deserto, em Minas Gerais.


- Deu problema na mente. Um dia, saí andando sem querer voltar. Dormia no meio do mato. Depois de 40 dias, o pensamento assentou. Voltei para casa - conta.



Ele passou a beber em excesso e só aquietou das crises de depressão, durante as quais mal se levantava da cama, recentemente, depois de ser tratado no Centro de Tratamento Oncológico (CTO), hospital privado de Petrópolis, que atende pelo SUS. Ele teve alta depois de tratar um câncer num dedo, que perdeu após uma necrose, num braço e no nariz.



Dois irmãos de José morreram de câncer. Um que o ajudava na lavoura teve um tipo semelhante ao dele, amputou um braço e faleceu aos 50 anos. O outro, que não tinha contato direto com agrotóxicos, morreu aos 70, vítima de um câncer na garganta. Todos foram criados em áreas de plantações.



Estudioso do assunto - que já teve mais de 30 artigos científicos publicados -, Armando Meyer, professor adjunto e diretor do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) da UFRJ, fez parte de uma equipe que, em 2003, constatou um risco maior de morte por câncer de esôfago e estômago entre agricultores da Região Serrana em relação às populações do Rio e de Porto Alegre, que registram altas taxas da doença. Dependendo da idade, o agricultor chegava a ter 300% mais chance de morte.



- O poder econômico e político do agronegócio no país é imenso. Os primeiros passos que tornaram o Brasil um jogador pesado do agronegócio foram dados nos anos 70, quando um decreto do governo determinou que uma parte do financiamento agrícola deveria ir para compra deste tipo de insumo. E o segmento não para de crescer em países como Brasil, China, Índia e Rússia. A situação de hoje ainda é o legado do passado - observa Meyer. - O agricultor usa o produto de forma errada. A culpa não é dele, mas do governo.



Professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Unicamp e pesquisador dos efeitos do agrotóxico,Ângelo Trapé analisou os dados obtidos pelo Globo e não considerou as relações um indicativo importante:



- Estudos epidemiológicos que investigam supostas relações entre câncer e agentes ambientais são longos, até de décadas. Não é possível qualquer correlação com os dados apresentados. Além disso, não há um estudo clínico epidemiológico que indique que são cancerígenos os agrotóxicos registrados no país, aos quais aquelas populações poderiam estar potencialmente expostas.



Desde 2000, a Anvisa já retirou de circulação 11 ingredientes ativos de agrotóxicos considerados nocivos à saúde. Dois são analisados com indicações de banimento e 17 estão à venda com restrições. O gerente geral de toxicologia do órgão, Luiz Cláudio Meirelles, explica que o país lida com um passivo que exige uma série de estudos e avaliações até a retirada de um produto do mercado. Para ele, os dados obtidos pelo Globo merecem ser investigados:



- Há uma grande preocupação em torno dos efeitos crônicos a longo prazo, no agricultor e no consumidor. Alguma coisa acontece nessas áreas do interior para registrar taxas de câncer acima da média. O levantamento aborda uma questão importante.



O lavrador Oséias de Oliveira Rodrigues morreu devido a um câncer no cérebro em 2009, aos 37 anos. Ele estava na lavoura desde os 8 anos e deixou dois filhos. Segundo sua irmã, Maria José Rodrigues, de 51 anos, nunca usou proteção durante a pulverização dos produtos na lavoura em Teresópolis:



- Ele sentia dores de cabeça e tontura mas, nos postos de saúde, receitavam dipirona e remédios para enjoo. Nunca associaram as dores ao veneno. Sequer perguntavam em que ele trabalhava.



Responsável pelo departamento de Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho e ao Ambiente do Instituto Nacional do Câncer, Ubirani Otero afirma que o país precisa vencer o "silêncio epidemiológico".



- O profissional de saúde atende um paciente com câncer e não pergunta em que ele trabalha. Mais de 50% das pessoas com câncer na Serra se tratam no Inca - afirma Otero, que costuma dizer que agricultores tomam "banho" de agrotóxico.



Breno Braga, médico do Programa Saúde da Família que trabalha há oito anos na localidade de Vargem Alta , no distrito de São Pedro da Serra, em Nova Friburgo, diz que ligou casos de pacientes com depressão e suicídio a venenos agrícolas. Maior produtora de flores do Rio, a cidade tem plantações com uso intenso de agroquímicos.



- É muito difícil estabelecer uma relação de causa e efeito, mas a localidade registra muitos casos de depressão e suicídio, que impressionam porque atingem jovens entre 20 e 30 anos. É muito comum eles beberem o próprio agrotóxico - afirma Braga.

Fonte: Site IHU

Transposição do São Francisco tem mais dois lotes parados



O festival de complicações que atingem o projeto de transposição do rio São Francisco ganhou mais um problema. As obras em outros dois lotes foram interrompidas, nos últimos dias, pelos consórcios das empreiteiras responsáveis. De acordo com o Ministério da Integração Nacional, que comanda o projeto, a decisão de paralisar as obras foi tomada "unilateralmente" pelas empresas. O motivo não foi informado.
A reportagem é de Daniel Rittner e publicada pelo jornal Valor, 24-10-2012.

Ambos os lotes fazem parte do eixo leste da transposição, no interior de Pernambuco e da Paraíba, e têm conclusão prevista até o quarto trimestre de 2014. A promessa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era entregar as obras até o fim de 2010, beneficiando 12 milhões de pessoas no Nordeste, mas uma sucessão de dificuldades foi jogando o prazo cada vez mais para a frente. Até serviços executados pelo Exército foram alvo de irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Em agosto, a Integração Nacional rescindiu o contrato de um trecho tocado por um consórcio que tinha a Delta Construção, pivô do escândalo que resultou na CPI do Cachoeira, entre suas integrantes.

Agora, foram paralisados os lotes 10 e 12, que já passando por uma desaceleração gradual dos trabalhos. O lote 10, com investimentos de R$ 274 milhões, tem 55,7% dos serviços já executados e é tocado pelo consórcio Emsa / Mendes Jr. As obras, concentradas em Pernambuco, somam 39 quilômetros de extensão e englobam canal, aqueduto, pontes e reservatório. Foram desembolsados R$ 186 milhões até hoje.

O lote 12 tem 28 quilômetros de extensão e registra 33% de avanço físico. Com investimento total de R$ 179,1 milhões, já foram pagos R$ 140 milhões. As obras envolvem canais e túnel, dividindo-se entre Pernambuco e Paraíba. OASGalvãoBarbosa Mello e Coesa formam o consórcio responsável pelos trabalhos.

O ministério informou ter notificado as empresas para que retomem "imediatamente" a execução das obras e advertiu sobre a possibilidade de aplicar "as devidas sanções legais", sem entrar em detalhes. Os contratos estão vigentes. "As empresas devem, conforme estipulado, entregar os serviços executados em perfeito estado", alertou o ministério.

Orçada em R$ 8,2 bilhões por enquanto, a transposição do São Francisco ainda não tem uma projeção definitiva de custos, já que outras cinco licitações complementares devem ser feitas nos próximos meses. As concorrências abrangem lotes que tiveram obras interrompidas nos municípios de Salgueiro (PE), Verdejante (PE), Mauriti (CE), São José de Piranhas (PB) e Floresta (PE). Elas estavam prometidas para este ano, mas os editais ainda não saíram, o que pode atrapalhar ainda mais o cronograma do projeto.

Dos 16 lotes que formam o projeto de transposição do São Francisco, sete estão em atividade e um já foi concluído - o canal de aproximação do eixo norte, em Cabrobó (PE), tocado pelo Departamento de Engenharia e Construção (DEC) do Exército.

Em agosto, foi concluída uma nova licitação para as obras do lote 5, com um contrato de R$ 520 milhões. A concorrência foi vencida pela Serveng Civilsan.

A transposição, batizada formalmente de projeto de integração do rio São Francisco com as bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional, visa assegurar a oferta de água a 391 municípios de quatro Estados: Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Atualmente, mais de quatro mil trabalhadores estão nos canteiros, segundo o ministério.

O projeto prevê a retirada contínua de 26,4 metros cúbicos por segundo de água, o equivalente a 1,42% da vazão garantida pela barragem de Sobradinho, dos quais 16,4 m3 /s seguirão para o eixo norte e 10 m3 /s para o eixo leste. Nos anos em que o reservatório de Sobradinho estiver com excesso de água, o volume captado poderá ser ampliado para até 127 m3 /s, aumentando a oferta de água para múltiplos usos.

Após sucessivos ajustes nos cronogramas, a previsão do governo para a entrega do eixo leste é no fim de 2014. No eixo norte, a estimativa é o fim de 2015. Mesmo assim, há quem considere esses prazos otimistas demais.

Fonte: Site IHU.

RN. Projeto do perímetroirrigado da chapada do Apodi. Um contrassenso.


Entrevistaespecial com Antonio Nilton Bezerra Júnior

“Essaluta não é apenas dos camponeses e camponesas de Apodi. A luta em defesa daChapada do Apodi se tornou uma luta nacional de todos aqueles e aquelas quedefendem a dignidade das comunidades camponesas”, diz o sociólogo.

Confira a entrevista.
Na chapada do Apodi,localizada na divisa dos estados do RioGrande do Norte e do Ceará,há uma “disputa por dois modelos de agricultura”, diz Antonio Nilton Bezerra Júnior,da Comissão Pastoral da Terra de Mossoró à IHU On-Line. Um dos modelos está“enraizado” nas comunidades da região, e tem uma preocupação com abiodiversidade, a distribuição de renda e democratização da água e da terra. Ooutro, ao contrário, “provoca a concentração de terra, de água e de renda, quedestrói a natureza, polui as águas e o solo, destrói a vida”.
Segundo Bezerra Júnior,a subsistência de milhares de famílias que trabalham com a agricultura epecuária está ameaçada pelo projeto “PerímetroIrrigado de Apodi”, que prevê entregar as “terras da chapada do Apodi e aágua da barragem deSanta Cruz, que tem capacidade de armazenar 600 milhões demetros cúbicos, a cinco grandes empresas da fruticultura irrigada”. Para ele, oprojeto é inviável e o governo, apesar de reconhecer que “os perímetrosirrigados do Nordeste não foram viáveis”, insiste na iniciativa. “Dados dopróprio governo mostram que há no Nordeste mais de 140 mil hectares de terrasem perímetro irrigados ociosos, sem funcionar”, argumenta. E dispara: “Queremtransformar um território camponês produtor de alimentos saudáveis em uma zonade produção de frutas para exportação com base na utilização em grande escalade agrotóxicos. E, com isso, transformar uma pequena parcela da população localem mão de obra barata e em condições sub-humanas, características doagronegócio brasileiro”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o sociólogo assinala que oprojeto “PerímetroIrrigado de Apodi” é uma iniciativa do deputado Henrique Alves (PMDB –RN). “Em uma visita ao município de Apodi chegou a afirmar que o projetode irrigação irá sair porque ele tem poder, que a presidenta Dilma precisado seu apoio, pois ele é líder de 80 deputados, e a partir de fevereiro de 2013será o presidente da Câmara dos Deputados. Essas afirmações de demonstração desoberba são constantes”, assinala.
Antonio Nilton BezerraJúnior é sociólogo e membro da Comissão Pastoral da Terra – CPTde Mossoró-RN.


Confira a entrevista.

IHU On-Line – Na chapadado Apodi, localizada na divisa entre os estados do Rio Grande do Norte e doCeará se trava uma intensa disputa entre agricultores e o agronegócio. O queestá em jogo nessa região?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Está muito clara a disputa por dois modelos deagricultura. Um que preserva a vida, a biodiversidade, que distribui renda,democratiza a terra e a água, ou seja, que tem como objetivo principal areprodução da vida. Esse modelo está enraizado nas diversas comunidadesda Chapada, seja nas áreas de assentamentos da reforma agrária oucomunidades de pequenos agricultores e agricultoras. Essas comunidades eassentamentos vêm demonstrando que é possível viver bem no campo, produzindoalimentos saudáveis apesar do pouco investimento por parte dos governos. Poroutro lado, há outro modelo que provoca a concentração de terra, de água e derenda, que destrói a natureza, polui as águas e o solo, destrói a vida. Essemodelo tem como principal objetivo o lucro das grandes empresas em detrimentoda vida dos camponeses e camponesas. Portanto, o que está em jogo é a água, aterra fértil, a biodiversidade, a vida das pessoas.

IHU On-Line – Qual é aimportância da chapada do Apodi para a agricultura do Rio Grande do Norte. Quemsão os agricultores que se encontram no território, o que produzem e quetécnicas de cultivo utilizam?

Antonio Nilton BezerraJúnior – O município de Apodi, no Rio Grande do Norte, tem na agriculturasua principal atividade econômica. Uma característica dessa agricultura é queela está praticamente nas pequenas propriedades camponesas. Toda a produçãoagrícola e pecuária de Apodiestá nas pequenas propriedades. É na Chapada do Apodique está a segunda maior produção de mel de abelha do Brasil, um dos maioresrebanhos de caprinos do país. Na chapadado Apodi vivem hoje milhares de famílias que têm na agriculturae pecuária a sua principal atividade. São nas comunidades e nos assentamentosda Chapada do Apodique diversas experiências de produção agroecológicas estão sendo desenvolvidas.Tudo isso faz com que o município de Apoditenha o terceiro PIB agropecuário do Rio Grande do Norte,estando à frente de municípios que têm a forte presença do agronegócio como Assú, Ipanguassu, Carnaubais, Baraúna, além deoutros. E repito: toda a produção agropecuária do município de Apodi está naspequenas propriedades dos camponeses e camponesas. Essa população camponesa deApodi há vários anos vem desenvolvendo técnicas de produção agroecológicas.Destacamos a produção e beneficiamento do mel de abelha, a produção de algodãoorgânico, arroz orgânico, produção de polpas de frutas da região etc. Tudo issofaz de Apodi umareferência em agricultura agroecológica.

IHU On-Line – O quepropõe o projeto apresentado pelo governo para a Chapada do Apodi?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Esse projeto do perímetro irrigado da Chapada do Apodi é umcontrassenso a tudo o que hoje se constrói na chapada e se discute no mundo. Éum projeto que prevê entregar as terras da chapada do Apodi e a água da barragem de Santa Cruz,que tem capacidade de armazenar 600 milhões de metros cúbicos, a cinco grandesempresas da fruticultura irrigada. É um projeto que não deu certo em lugaralgum. O próprio governo reconhece que os perímetros irrigados do Nordeste nãoforam viáveis. Dados do próprio governo mostra que há no Nordeste mais de 140mil hectares de terras em perímetro irrigados ociosos, sem funcionar. Esseprojeto está propondo irrigar cinco mil hectares de terra em sua primeira fasepara produzir cacau – que é totalmente desconhecido na região –, uva, goiaba,com base na utilização em grande escala de agrotóxicos e sob o domínio de cincogrande empresas. Querem transformar um território camponês produtor dealimentos saudáveis em uma zona de produçãode frutas para exportação com base na utilização em grande escala deagrotóxicos. E, com isso, transformar uma pequena parcela da população local emmão de obra barata e em condições sub-humanas, características do agronegóciobrasileiro.

IHU On-Line – Quaisserão os principais impactos ambientais e sociais se o projeto for executado?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Em primeiro lugar, terá a expulsão de centenas defamílias de suas terras, fazendo com que comunidades inteiras desapareçam. Issoirá causar graves problemas sociais no município e região. Basta ver o exemploda Chapada do Apodipelo lado do Ceará, nos município de Limoeirodo Norte e Russas.Aumentarão também a prostituição, o número de pessoas com câncer, o trabalhoprecarizado etc. Por outro lado, haverá fortes impactos ambientais, como odesmatamento da Caatinga,a contaminação das águas e do solo, a morte das abelhas, o desaparecimento dosanimais silvestres etc.

IHU On-Line – Quais sãoas principais irregularidades do projeto?

Antonio Nilton BezerraJúnior – São várias as aberrações. Em primeiro lugar, asfamílias que serão removidas de suas comunidades não foram consultadas. No Relatório de Impacto Ambiental –EIA-RIMA não se fala na remoção de famílias; é como se no localnão existissem pessoas. Ele também não leva em conta a produção agropecuária,omite os impactos dos agrotóxicos para a população local, não faz nenhumareferência à questão da saúde humana. Na área existe um sítio arqueológico, Lajedo de Soledade,que também passa despercebido pelo EIA-RIMA.Além disso, especialistas questionam a viabilidade desse projeto, pois acapacidade da barragem não é suficiente para irrigar cinco mil hectares. Alémdo mais, existem outros projetos vinculados à barragem, como duas adutoras queirão abastecer dezenas de cidades da região.

IHU On-Line – Por que asorganizações sociais da região afirmam que o projeto se trata
de uma “reforma agráriaao contrário”?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Isso está muito claro. O decreto desapropria13.855 hectares. Toda essa terra está hoje localizada em pequenas propriedades.Com o projeto haverá uma concentração de terra por cinco grandes empresas. Naregião, nos anos 1990, ocorreram muitas desapropriações para a reforma agrária.Ocorreu uma descentralizaçãoda terra e a constituição de um território camponês. Caso esse projeto sejaaprovado, tudo isso vai por “água abaixo”. Se fizermos um comparativo comdesapropriação para a reforma agrária, teremos clareza da dimensão desastrosadesse projeto para com a reforma agrária. Nos últimos sete anos, último mandatodo governo Lula einício do mandato de Dilma, no Rio Grande do Norte, a desapropriação parareforma agrária praticamente não aconteceu. Com o decreto para o projeto doperímetro irrigado, destinado às cinco grandes empresas, tiram-seaproximadamente 14.000 hectares das pequenas propriedades. É um contrassensomuito grande. Uma estupidez.

IHU On-Line – Quem é queestá por trás do projeto e a que interesses atende?

Antonio Nilton BezerraJúnior – O principal defensor desse projeto até agora temsido o deputado federal HenriqueAlves (PMDB/RN), líder do partido na Câmara. O diretor geral doDepartamento Nacional deObras Contras as Secas – DNOCS é indicação sua. Ele tempressionado muito o governo federal para que essa obra seja executada. O grandeinteressado nesse projeto é o agronegócio. Mas há também interesse por partedas empresas da construção que irão construir o canal. Com certeza há muitosinteresses nada republicanos envolvidos nessas grandes obras. É bom lembrarque, no mês de janeiro deste ano, aControladoriaGeral da União – CGU divulgou um relatório, fruto dafiscalização em projetos do DNOCS, e constatou várias irregularidades que,segundo ela, causou um prejuízo de aproximadamente 300 milhões aos cofrespúblicos. Desses projetos que apresentaram irregularidades estavam vários emexecução no Rio Grandedo Norte. Foram constatadas também diversas irregularidades noperímetro irrigado da Chapadado Apodi no lado do Ceará, Limoeiro do Norte e Russas. Foramconstatados superfaturamentos nas obras, pagamento de serviços sem seremexecutados, empresas fantasmas etc. Esse escândalo derrubou o então diretorgeral do DNOCS,apadrinhado político do deputadoHenrique Alves. O que nos estranha é que antes de qualquerexplicação a respeito dessas irregularidades, o mesmo deputado consegue indicarum novo apadrinhado seu para o cargo de diretor geral, como se não tivesse nadaa explicar.

IHU On-Line – É verdadeque o deputado Henrique Alves (PMDB/RN) se orgulha de dizer
nas rádios da região queo projeto de irrigação do Apodi sairá porque ele manda na presidente Dilma:“Ela come na minha mão!”, diz ele?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Constantemente o deputado Henrique Alvesprocura demonstrar que tem influência no governo Dilma. Em uma visitaao município de Apodi chegou a afirmar que o projeto de irrigação irá sairporque ele tem poder, disse que a presidente Dilma precisa do seu apoio, pois ele élíder de 80 deputados. Afirmou que a partir de fevereiro de 2013 será opresidente da Câmara dos Deputados. Essas afirmações de demonstração de soberbasão constantes.

IHU On-Line – Como seencontra no momento a execução do projeto?

Antonio Nilton BezerraJúnior – O projeto se encontra na fase de pagamento deindenizações para as famílias que irão ser atingidas pela construção do canal.Segundo o DNOCS,35 propriedades serão atingidas nessa fase. A ordem de serviço já foi assinada.

IHU On-Line – Como osagricultores estão organizados para resistir ao projeto?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Existe uma unidade de todos os movimentos sociaisem se contrapor a esse projeto, e um compromisso de resistir a suaimplementação. Estamos trabalhando em três frentes de atuação: junto com ascomunidades locais, trabalhando a conscientização das famílias e organizando aresistência; questionando judicialmente a execução do projeto, visto que eleapresenta diversas irregularidades; e dialogando com a sociedade sobre o queestá ocorrendo em Apodi,demonstrando os desmandos com o meio ambiente e a vida da população.

IHU On-Line – Gostariade acrescentar algo?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Gostaria de dizer que essa luta não é apenas doscamponeses e camponesas de Apodi.A luta em defesa daChapada do Apodi se tornou uma luta nacional de todos aqueles eaquelas que defendem a dignidade das comunidades camponesas. Essa luta estásintonizada com outras grandes lutas que estão sendo travadas pelo Brasil emdefesa dos territórios camponeses.

segunda-feira

Agrotóxicos matam abelhas e prejudicam polinização, diz estudo.



Do O Estado de S. Paulo
Pesticidas estão matando abelhas operárias e prejudicando sua alimentação, conclui estudo na revista Nature que mostra que essas colônias, vitais para a polinização, têm maior probabilidade de sucumbir na presença dessas substâncias.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que um terço de todos os alimentos de origem vegetal dependem da polinização das abelhas. Cientistas têm se preocupado com a queda do número de abelhas em tempos recentes, principalmente na América do Norte e na Europa.

Pesquisadores britânicos expuseram, por quatro semanas, colônias formadas por 40 abelhas mamangava - maiores que as abelhas de mel comuns - aos pesticidas neonicotinoide e piretroide.

No grupo exposto, dois terços das abelhas se perderam (morreram ou não retornaram). No grupo controle, apenas um terço se perdeu. Além disso, as abelhas que receberam os pesticidas só conseguiram colher cerca de metade do pólen em comparação com as outras abelhas.

Os achados ressaltam a importância de testes mais amplos, para assegurar que os pesticidas não atinjam também as abelhas.

sexta-feira

“A pulverização aérea é o método de aplicação mais perverso que existe”, afirma deputado



Deputado Padre João (PT), em comissão mista no Senado - Foto: Agência Senado

 José Coutinho Júnior

A pulverização aérea de agrotóxicos causa polêmica: ao passo que os grandes latifundiários defendem essa forma de aplicação, movimentos sociais e organizações ambientais apontam para os riscos graves que ela causa nas pessoas e no meio ambiente. Em julho deste ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) publicou decisão no Diário Oficial restringindo a aplicação de mais de 50 agrotóxicos que continham os componentes midacloprido, clotianidina, fipronil e tiametoxam.
A decisão do Instituto, no entanto, foi revogada para a Safra 2012/2013 no dia 03 de outubro, sob a alegação de que os produtores precisavam de tempo para se adaptar à suspensão dos produtos. Segundo a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja), ao questionarem a proibição de julho, se fosse mantido o veto total, os agricultores perderiam mais de R$ 5,92 bilhões.
Para o deputado Padre João (PT), “há um poder econômico perverso por trás de tudo isso. O interesse financeiro prevalece em relação ao interesse da saúde, a qualidade de vida do trabalhador e das comunidades rurais diretamente atingidas”.
Em entrevista à Página do MST, Padre João comenta a decisão do Ibama, os perigos da pulverização aérea e aponta alternativas ao modelo predatório de agricultura que temos hoje.


Agricultura familiar é responsável por combater a inflação

 Por Marcel Gomes
Da Carta Maior

Ir ao supermercado virou motivo de chateação. Prova disso é que, mês após mês, quando saem os índices de preços, as pessoas se assustam com a alta dos alimentos.

Em setembro não foi diferente. O IBGE divulgou nesta sexta-feira (5) que o IPCA, o índice de inflação mais importante do país, que guia a política monetária, subiu 0,57% no mês passado e ficou 0,16 ponto percentual acima da taxa registrada em agosto.

Ainda que setores como habitação tenham pressionado o índice, mais uma vez a alimentação foi campeã, respondendo por 52% da alta. É quase o mesmo impacto apurado no mês anterior, quando os alimentos foram responsáveis por 51% da elevação do índice.

Um primeiro comentário é que não há nenhum motivo para alarde, como fazem crer alguns. O IPCA segue distante do centro da meta, que é de 4,5% no ano, mas, aos 5,28% no acumulado de 12 meses, está “dentríssimo” da margem de tolerância, de dois pontos percentuais.

Um segundo, e mais importante comentário, é que a principal razão para a alta é sazonal e/ou climática, e, portanto, tem data para acabar. Logo mais, é quase certo que alimentos que subiram muito agora, como a batata (+21%), despenquem de preço. Foi o que ocorreu em setembro com o tomate, cuja cotação caiu 13% no mês.

Mas isso também não significa que não se possa fazer nada para aliviar a chateação do consumidor. E ela não deve ser pequena. A alta dos alimentos já alcança 6,43% entre janeiro e setembro, próximo aos 7,18% verificados em todo o ano de 2011. Nos 12 meses anteriores de setembro, os alimentos já subiram 9,51%.

Uma estratégia que pouco se comenta em nosso país, pelo menos no caso dos alimentos, é atacar essa inflação pelo lado da oferta. Mais produção de batata ajudaria a segurar o IPCA em níveis suportáveis.

E quem poderia fazer isso?

Não há outra resposta que não a agricultura familiar.

Esse setor da economia, formado por propriedades de até quatro módulos fiscais e gerido pelas próprias famílias, é responsável pela maior parte dos alimentos consumidos pelos brasileiros. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, o último disponível, vieram de propriedades familiares 87% da mandioca do país, 70% do feijão, 59% dos suínos, 58% do leite, 50% das aves, 46% do milho, 38% do café e 34% do arroz.

O surpreendente é que os agricultores e as agricultoras familiares fazem tudo isso ocupando apenas 24% da área agrícola do país, e empregando mais, 74% total de trabalhadores e trabalhadoras do campo. São 12,2 milhões de pessoas.

Diante desse cenário, resta pouca dúvida de que uma maneira de combater a inflação no país é investir na agricultura familiar – com crédito, seguro agrícola, tecnologia e infraestrutura de escoamento – para que esse setor aumente sua produção e reduza os períodos de gargalo dos produtos.

É preciso que se reconheça que a gestão que comanda o governo federal há dez anos tem o que mostrar. Quem diz isso não é só o próprio governo, mas pesquisadores do Observatório de Políticas Públicas para a Agricultura (Oppa) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Os dez anos do Plano Safra da Agricultura Familiar: um convite à reflexão).
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Eles lembram que foi apenas em 2012 que completaram uma década de Plano Safra da Agricultura Familiar. Só a linha de crédito do Pronaf aportará R$ 18 bilhões neste ano no setor, três vezes mais do que em 2003.

Mas é preciso mais. O grande agronegócio, por exemplo, receberá R$ 115 bilhões na atual safra, seis vezes mais do que o destinado aos agricultores familiares.

A amplitude das variações dos preços dos alimentos no IPCA indica que os formuladores da política econômica precisam reforçar seu apoio às políticas para a agricultura familiar. Afinal, se houvesse mais batata no supermercado em setembro, a inflação não teria chateado tanto os brasileiros.
 

quinta-feira

Diga NÃO ao Projeto da Morte!

Esse é o 1º de alguns teaser que serão publicado sobre o Projeto da Morte. 

Projeto da morte: cerca de quinhentas famílias de agricultores que há décadas desenvolvem um revolucionário método de produção agroecológica no sertão nordestino serão expulsas de suas terras para a implantação de um sistema de agronegócio que beneficiará cinco grandes empresas e contaminará toda a região conhecida como Chapada do Apodi/RN com agrotóxicos.
Veja o Vídeo: 


quarta-feira

Brasil é negligente no controle de agrotóxicos


agrotóxicos
 O Brasil, um dos maiores produtores agrícolas do mundo, é uma das nações mais atrasadas no controle de agrotóxicos. Dos 50 produtos químicos mais aplicados na agricultura, 22 são proibidos pela União Europeia (UE) e Estados Unidos, mas continuam sendo largamente utilizados em território brasileiro, apesar dos riscos que oferecem à saúde.
A reportagem é de Vanessa Fogaça Prateano e publicada pela Gazeta do Povo, 14-10-2012.
Entre eles, agentes que causam cegueira, má formação fetal, câncer (em especial os de tireoide e mama), puberdade precoce, problemas respiratórios e disfunções renais, de acordo com relatórios técnicos de várias entidades lançados neste ano e que corroboram alertas feitos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em anos anteriores.
Desde 2008, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta para a necessidade de vetar o uso dessas substâncias, mas somente agora, com o veto de países a produtos brasileiros cultivados com alguns agrotóxicos, é que a discussão ganhou corpo. A agência estuda proibir dez substâncias, além de quatro que já tiveram sua retirada do mercado aprovada.
Nessa relação está o endossulfam, cujos efeitos foram primeiramente notados num vilarejo na Índia, onde 6 mil pessoas (cerca de 50% dos domicílios), a maioria crianças, apresentaram graves deformações físicas e neurológicas. O produto só deve ser banido em 2013, de acordo com a agência. Na UE, ele está proibido desde 1985.
“Após a revolução verde [disseminação de práticas agrícolas, entre elas o uso de produtos químicos, que permitiu o aumento da produção nos anos 70], estamos vivendo a revolução vermelha. É um modelo químico-dependente que está causando um sério problema à saúde. Há evidências científicas disso há muito tempo”, afirma o pesquisador da Universidade Federal do Mato Grosso Wanderlei Pignati, que coordenou um estudo sobre agrotóxicos que foi apresentado na Conferência das Nações Unidas sobre Sustentabilidade, a Rio+20, em junho, no Rio de Janeiro.

I Encontro Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas do Brasil.

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segunda-feira

Movimentos sociais e sindicais pedem veto da presidenta à MP do Código Florestal.


Em carta encaminhada à Presidência na última terça-feira (9), organizações populares e sindicais afirmam que “da forma como está, o texto protege os latifundiários grileiros e especuladores”
Vivian Fernandes,
   
   
Manifestação na Esplanada dos Ministérios, em março, pedia o veto
presidencial ao Novo Código Florestal - Foto: José Cruz/ABr
Após a Câmara e o Senado aprovarem a Medida Provisória que altera o Código Florestal (MP 571/12) em setembro, movimentos sociais pedem novamente o veto da presidenta Dilma Rousseff. Em carta encaminhada à Presidência na última terça-feira (9), organizações populares e sindicais afirmam que “da forma como está, o texto protege os latifundiários grileiros e especuladores, que nada produzem sobre a terra”.
No documento, as entidades taxam de “afronta à democracia” a “tentativa do agronegócio de destruir o Código Florestal”. Os movimentos sociais avaliam como única saída o veto da presidenta aos “pontos que privilegiam o agronegócio, em detrimento da sustentabilidade ambiental e da produção, da agricultura familiar e camponesa”.
Assinam a carta a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre outros.
O Projeto de Lei que foi aprovado pelo Congresso Nacional em abril teve 12 itens vetados e 32 alterações feitas pelo governo, no mês de maio, por considerar que eles promoviam o desmatamento. Porém, na volta ao Congresso, o texto foi alterado pela bancada ruralista para que retornassem os benefícios aos desmatadores ilegais. Agora, falta apenas a sanção da presidenta Dilma.

Leia a carta na íntegra:

À Excelentíssima Presidenta do Brasil
Senhora Dilma Vana Rousseff

Há três anos a sociedade brasileira vivencia uma das maiores afrontas às conquistas democráticas de nosso país: a tentativa do agronegócio de destruir o Código Florestal, para avançar com seu projeto ambicioso, que visa apenas lucros, promove o desmatamento e intoxica a natureza e os que nela vivem.
Tendo sob seu domínio a grande maioria do Congresso Nacional, por meio da poderosa bancada ruralista, o agronegócio transformou a legislação ambiental em legislação agrícola, voltada para garantir interesses próprios e de grandes proprietários de terra.
A sociedade brasileira, organizada ou não, se manifestou incansavelmente contra os avanços do agronegócio sobre a natureza. Os movimentos sociais do campo e da cidade, a classe artística e parte significativa da classe política também se manifestaram contrariamente às pautas destrutivas do agronegócio, ao mesmo tempo em que defenderam o tratamento diferenciado para a agricultura familiar e camponesa. São os pequenos produtores que alimentam as famílias brasileiras e os que mais preservam o meio ambiente.
Após uma grande mobilização da sociedade brasileira, sensibilizada e ciente da necessidade de tomar decisões firmes, a excelentíssima Presidenta corretamente realizou vetos ao texto ruralista construído no Congresso. Para preencher o lugar dos artigos vetados, que tratavam justamente da recuperação de áreas desmatadas em beiras de rios e nascentes, o Governo Federal enviou ao Congresso Nacional uma Medida Provisória.
Um dos eixos centrais desta MP era o tratamento diferenciado para a pequena propriedade, exigindo que os médios e grandes proprietários deste país recuperem as áreas que desmataram. O texto da MP, no entanto, foi modificado e aprovado na Câmara e no Senado, sob os aplausos veementes dos líderes ruralistas Kátia Abreu e Blario Maggi.
O agronegócio mais uma vez impôs seus interesses à formulação da Lei, estabelecendo que:
- Os benefícios para a pequena propriedade fossem estendidos para a média propriedade, ou seja, até 15 módulos rurais (o que pode chegar a 1.500 hectares). Para esses médios, a área mínima de recuperação passou de 20 metros para apenas 15 metros;
- Para os grandes, a área mínima passou de 30 metros para 20 metros, além de o limite máximo ficar a critério de cada estado. Ou seja, o meio ambiente estará sujeito aos interesses políticos estaduais, mesmo tendo impactos sobre toda a sociedade brasileira;
- Se não bastasse a redução da área a ser recuperada em beiras de rios, o agronegócio também se valeu do benefício concedido aos pequenos produtores de poderem recuperar as áreas com até 50% de espécies frutíferas exóticas e expandiu essa possibilidade para as médias e grandes propriedades. Ou seja, onde deveria haver matas, haverá monocultivos com apelação econômica, ou seja, ao invés dos grandes proprietários de terra serem obrigados a recuperarem o que destruíram, serão beneficiados e certamente voltarão a agredir os remanescentes que sobraram;
- Mesmo com todo o discurso produtivista, o agronegócio retirou do texto a definição de área abandonada, e retirou a restrição para pousio (tempo de descanso da terra entre um cultivo e outro), que era de no máximo 25% da propriedade.
Da forma como está, o texto protege os latifundiários grileiros e especuladores, que nada produzem sobre a terra. As médias propriedades deveriam, sim, ser a extensão máxima permitida para proprietários no país, e estes, que se dizem produtores, são os mesmos que impedem a atualização dos índices de produtividade.
Diante de tamanhos retrocessos, nos direcionamos à Excelentíssima Presidenta reivindicando que mantenha seus compromissos de campanha de não anistiar desmatadores. A sociedade brasileira vê como única alternativa o veto da Presidenta a esses pontos que privilegiam o agronegócio, em detrimento da sustentabilidade ambiental e da produção da agricultura familiar e camponesa. Somente assim a Presidenta estará garantindo a segurança alimentar, a sustentabilidade ambiental e a defesa da democracia brasileira, gravemente ameaçada pelo poderio totalitário do agronegócio.
A sociedade brasileira mais uma vez se manifesta: VETA DILMA!
Assinam este documento:
Central Única dos Trabalhadores – CUT
Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura – CONTAG
Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar – FETRAF
Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra – MST
Movimento de Mulheres Camponesas – MMC
Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA
Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

sábado

No Vale do Assú/RN Irregularidades trabalhistas praticadas pela Del Monte geram indenização de R$ 1 milhão.

 Da Assessoria do Ministério Público do Trabalho

Uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte (MPT/RN) contra a empresa norte-americana de fruticultura Del Monte Fresh Producer resultou na condenação ao pagamento de R$ 1 milhão por dano moral coletiv. As obrigações foram estabelecidas na sentença proferida pelo Juízo da Vara do Trabalho em Assu, após comprovação das irregularidades existentes na produção de bananas realizada na região do Vale do Assu.
A ação, ajuizada em 2010, foi motivada por notícia publicada em jornal da cidade de Mossoró, dando conta de que a Del Monte estaria causando graves danos ao meio ambiente e à saúde dos trabalhadores.
“Antes de propor a ação e durante o transcurso dela, o MPT tentou firmar termo de ajustamento de conduta com a empresa, porém sem obter sucesso, uma vez que a Del Monte se recusava a acatar as medidas fixadas”, destaca o procurador do Trabalho Gleydson Gadelha, que assina a ação.
Dentre as irregularidades apontadas na ação, o MPT demonstrou a realização de jornadas excessivas de até 15 horas diárias e a existência de condições de trabalho insalubres, inclusive com exposição dos trabalhadores a agrotóxicos sem equipamento de proteção adequado.
Uma inspeção judicial realizada em julho de 2012, com a presença do MPT e dos advogados da empresa, constatou que diversas falhas verificadas em fiscalizações anteriores persistem até hoje, tais como: o transporte de trabalhadores em veículos que não oferecem a segurança adequada e a utilização de tração humana para carregar cachos de bananas que podem pesar até 40 quilos, quando o peso recomendável pela literatura médica é fixado em 23 kg, para levantamento e transporte manual de cargas.
Para a juíza do Trabalho substituta Aline Fabiana Campos Pereira, que assina a sentença e acompanhou a inspeção judicial, “no procedimento de tração das bananas, o burro é substituído pelo homem, em ação que tem valor simbólico representativo do modo como os trabalhadores são tratados na empregadora: como animais de carga,” ressalta.
Para resgatar a dignidade dos trabalhadores lesionados, foi determinado à empresa norte-americana a obrigatoriedade do pagamento de R$ 1 milhão a título de dano moral coletivo, que devem ser revertidos para uma instituição beneficente a ser indicada pelo MPT. Segundo a sentença, o valor atribuído também tem função pedagógica, uma vez que a Del Monte possui inúmeras ações trabalhistas na Vara de Assu, chegando a ocupar um terço da pauta das audiências naquele juízo.
O pagamento da indenização somente poderá ser exigido após o trânsito em julgado de sentença final condenatória, pois ainda cabe recurso contra a decisão de primeira instância. O número para acompanhamento da ação na Justiça do Trabalho é o 31800.42.2010.5.21.0016.

quarta-feira

“Morte e Vida no Campo: A questão Agrária Brasileira”


Nesta quinta-feira, dia 11 de outubro, o economista, ativista social e integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra, João Pedro Stédile, estará em Mossoró para debater os principais temas referentes à questão agrária brasileira. Com o mote “Morte e Vida do no campo”,  o seminário tem por objetivo trazer à sociedade o debate sobre os modelos agrícolas que o Brasil vem adotando e sua influência na vida da população. No centro da discussão estará a dicotomia ente os modelos de latifúndio e o uso indiscriminado de defensivos agrícolas em paralelo à agricultura familiar e agroecológica. O tema é de extrema relevância para a região do Alto-oeste potiguar, por trazer para o centro da discussão o contexto rural em que este está inserido. A importância se faz, ainda, pela necessidade de se discutir os impactos e consequências decorrentes da possível Implantação do Projeto de irrigação Santa Cruz do Apodi.
O debate ocorrerá no dia 11 de outubro, no Hotel Villa Oeste, a partir das 19:00h. As inscrições serão feitas no dia e local do  seminário, mediante a doação de 1kg de alimento não perecível. O evento está sendo organizado pelo Grupo de direito crítico, marxismo e América latina, projeto ser-tão, Movimento dos trabalhadores rurais sem terra, Federação dos estudantes de agronomia e Via Campesina, contando com o apoio da INCUABOESTE, UFERSA, Comissão Pastoral da terra, Centro Feminista 8 de março, IPEJUC, STTR-APODI e demais parceiros.
 

terça-feira

Agronegócio, agrotóxico e “agrocâncer”.


As consequências desse modelo, que se tornou hegemônico nos últimos dez anos, já apresentam resultados perversos para o meio ambiente, para a economia e para a saúde dos brasileiros.
As três palavras acima não são mera propaganda. Nos últimos dez anos tomou conta da forma de produzir na agricultura brasileira, o chamado agronegócio. Ele é um modelo de produção de mercadorias agrícolas, subordinado agora aos interesses do capital financeiro e das grandes empresas transnacionais. Aliados aos fazendeiros brasileiros, que entram com a natureza.
Nesse modelo, o capital financeiro entra com o capital. Do valor bruto de produção agrícola ao redor de 160 bilhões de reais, os bancos entram com aproximadamente 110 bilhões todos os anos, financiando a compra dos insumos e cobrando os juros, sua parte na mais-valia agrícola. E as empresas transnacionais fornecem os insumos agrícolas, máquinas, fertilizantes químicos e, sobretudo, os venenos agrícolas. A produção agrícola depois se destina ao mercado mundial, as chamadas commodities agrícolas.
Esse modelo construiu então uma forma de produzir, uma matriz tecnológica que combina grande propriedade, que vai aumentando a escala de produção a cada ano, monocultivo, se especializando num só produto de exportação, mecanização intensiva, pouco emprego de mão-de-obra direta e uso intensivo de venenos agrícolas. As conseqüências desse modelo que se tornou hegemônico nos últimos dez anos, e que atua independente de tudo, já apresentam seus resultados perversos, para o meio ambiente, para a economia brasileira, para o rendimento econômico dos próprios fazendeiros e, sobretudo para a saúde dos brasileiros.
Em termos econômicos, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), esse padrão de exploração econômica levou a uma matriz básica de custo de produção, em que os fazendeiros capitalistas brasileiros gastam em média, 24% com fertilizantes químicos, quase todos importados, 15% de todo capital investido em venenos, e mais 6% em sementes transgênicas. Pagam em média 2% de royalties para as empresas de sementes, totalizando 47% de todo seu custo. E gastam apenas 4% com mão-de-obra de trabalhadores rurais brasileiros e ficam, no final, com 13% de lucro. Ou seja, a conta é clara. Nossa agricultura está totalmente subordinada aos interesses do capital financeiro e estrangeiro e transfere a eles a maior parte do valor de produção.
Os resultados no meio ambiente são catastróficos. Hoje 80% de todas as terras cultivadas são utilizadas no monocultivo da soja/milho, cana de açúcar, algodão e na pecuária extensiva. Isso tem gerado um desequilíbrio da biodiversidade na natureza, que se agrava com aplicação dos venenos agrícolas, que matam tudo.
Com essa destruição da biodiversidade pelo monocultivo e pela aplicação dos venenos se gera um desequilíbrio também no regime das chuvas e nas condições climáticas de todo território brasileiro. Essa é a razão fundamental da ocorrência mais freqüente de secas mais duras e de enchentes mais torrenciais em todas as regiões do país.
Também se percebe as conseqüências na saúde humana e animal. O Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Consumimos sozinhos 20% de todos os venenos do mundo. As dez maiores empresas mundiais produtoras de venenos, que começaram na primeira e segunda guerra mundial produzindo bombas químicas, agora produzem venenos. São elas: Sygenta, Bayer, Basf, Dow, Monsanto, Dupont, Makhteshim (de Israel) Nufarm (Austrália) e Sumimoto e FMC (Japão). São todas empresas transnacionais que controlam os venenos no mundo e aqui no Brasil. Os fazendeiros gastaram 7,3 bilhões de dólares comprando venenos nessas empresas.
Os venenos, por serem de origem química, não se degradam na natureza. Eles matam os insetos, as bactérias no solo, afetam a fertilidade, contaminam as águas subterrâneas, contaminam as chuvas - muitos desses venenos secantes evaporam e ficam na atmosfera e depois retornam com as chuvas. E contaminam os alimentos que as pessoas consomem.
No organismo das pessoas estes venenos geram todo tipo de distúrbio, vão se acumulando, afetam órgãos específicos, até produzirem câncer com a destruição das células.
Isso e muito mais foi agora denunciado por um extenso e profundo relatório produzido pela Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco). O documento alerta para os riscos e conseqüências que o uso generalizado de venenos agrícolas está provocando na saúde dos brasileiros.

Animais viviam melhor que trabalhadores em fazenda-zoológico no Maranhão


Em Santa Inês (MA), fazendeiro mantinha pequeno zoológico com bichos bem tratados, e criação de gado com 12 empregados em situação análoga à de escravo; processo trabalhista pode chegar a R$3 milhões.
Guilherme Zocchio

Vitória é uma zebra rara: vive entre pessoas e tem acesso livre à casa do seu dono, o fazendeiro Francisco Gil Alencar. Ele é proprietário de um minizoológico em Santa Inês (MA) cujo nome lhe presta uma homenagem: o "Gilrassic Park". Além de Vitória, o parque conta com 900 outros bichos de 100 espécies diferentes, principalmente aves e animais silvestres, que recebem acompanhamento especializado de um zootecnista.
   
Trabalhador mostra recipiente com água que
ele e colegas eram obrigados a beber - Fotos: MTE
   
A pouco mis de cinco quilômetros do Gilrassic Park, na mesma propriedade, a situação de 12 empregados de Francisco Gil era bem distinta: eles foram resgatados de condições análogas às de escravo pelo grupo móvel de fiscalização, em inspeção no fim de março deste ano. A vistoria contou ainda com membros do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Os libertados trabalhavam sem carteira assinada ou equipamentos de proteção individual (EPIs), fazendo o roçado manual do pasto dos bois da Fazenda Coronel Gil Alencar, onde fica o Gilrassic Park, em condições absolutamente subumanas e degradantes.

Segundo a fiscalização**, o alojamento dos trabalhadores ficava no meio do mato, em espaço geograficamente isolado e sem meio de transporte disponível. Para chegar ao grupo de 12 escravos, a equipe percorreu uma longa trilha a pé a partir do quilômetro 30 da rodovia BR-222, através de um matagal e de uma estrada alagada. Eles vasculharam um extenso terreno de pastagem por cerca de duas horas até encontrar o barraco onde estavam os empregados, nas margens de um igarapé.
Os trabalhadores dormiam no mesmo terreno da pastagem dos bois. O alojamento tinha somente a cobertura de uma lona preta e alguns maços de palha, sem paredes laterais ou qualquer tipo de proteção contra animais peçonhentos, chuva e outras intempéries. Ainda não havia nas redondezas lugar adequado para as necessidades fisiológicas de um ser humano.

segunda-feira

Estudo aponta crescimento da pobreza com avanço do agronegócio em SP


Por Gerson Freitas Jr. 
Do Valor Econômico

O crescimento do agronegócio, frequentemente associado ao aumento da renda e à prosperidade no interior do país, também pode ter relação com o avanço da chamada pobreza relativa (a incapacidade de se viver de acordo com o custo de vida local) e da violência no campo.

É o que sugere um estudo divulgado ontem pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que criou um conjunto de 50 mapas intitulado "São Paulo Agrário".

De acordo com a pesquisa, cidades paulistas que experimentaram uma forte expansão da atividade agrícola entre 1990 e 2008 observaram também um aumento da pobreza relativa e o acirramento dos conflitos agrários no período.

O trabalho, que cruzou informações sobre concentração de renda, pobreza relativa, produção agrícola, uso da terra e mortes por conflitos no campo, demonstra que o fenômeno foi particularmente evidente nas regiões Oeste e o Nordeste do Estado, onde o aquecimento da atividade agrícola foi acompanhado do aumento da violência e da marginalização econômica.

"Isso reitera o fato de que esse modo de produção leva aos municípios uma prosperidade concentrada nas mãos de poucos, enquanto gera um número cada vez maior de excluídos", conclui o autor da pesquisa, o geógrafo Tiago Avanço Cubas.

Segundo ele, Ribeirão Preto, um dos principais polos do agronegócio no país, é um caso típico da relação entre prosperidade agrícola e pobreza. "O município viveu de 1990 a 2008 um crescimento desordenado impulsionado pelo investimento rural e que levou ao surgimento e intensificação do número de moradias precárias". Segundo dados do IBGE, citados pelo estudo, Ribeirão Preto possui 26 favelas, quase todas originadas nos últimos 20 anos.

O trabalho sustenta ainda que os pequenos produtores, responsáveis pela maior parte da produção de alimentos como feijão e mandioca, enfrentam grandes dificuldades e dependem de ações assistencialistas para sobreviver. "São necessárias políticas emancipatórias para o setor", conclui Cubas.