sábado

Opção pelo agronegócio permite desigualdade social, diz especialista.

Por José Coutinho Júnior
Da Página do MST
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou o Atlas do Espaço Rural Brasileiro, publicação que integra os dados do Censo Agropecuário 2006 com pesquisas sociais, populacionais, ambientais e econômicas. Segundo o Instituto, o objetivo da publicação é retratar a realidade territorial do campo brasileiro. Os dados, referentes à educação no campo, tecnologia e modernização do meio rural brasileiro, uso dos recursos naturais e concentração de terras, mostram um campo brasileiro desigual, no qual uma minoria segue privilegiada enquanto a maioria dos agricultores vive em situações precárias. 
De acordo com José Juliano De Carvalho Filho, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP e membro da Associação Brasileira da Reforma Agrária (ABRA), “Tudo isso ocorre porque o agronegócio é a opção econômica que o governo adotou para o campo”. Em entrevista à Página do MST, o professor comentou os dados apresentados pelo IBGE, e aponta que a realidade territorial do campo brasileiro é dura para os mais pobres. 
Confira a entrevista:     
Dos proprietários rurais que administravam diretamente propriedades agropecuárias, 3,9 milhões de estabelecimentos, ou 39%  do total, eram analfabetos ou sabiam ler e escrever sem terem frequentado a escola, e 43% não tinham completado o ensino fundamental. Por que esse percentual tão grande?
Essa população não existe para o estado, e quando existe, as políticas para ela são de baixa qualidade. É só ver a distância que as crianças assentadas precisam percorrer para chegar à escola. Além disso, os professores recebem salários baixos, e dão aulas a muitos alunos. Para os pobres do campo, a política é pouco efetiva.
Já a concentração dos maiores percentuais de produtores proprietários com nível médio de instrução (regular e profissionalizante) ocorre nas áreas de domínio do complexo agroindustrial da soja e de outras commodities de exportação, demonstrando a correlação entre o aprimoramento técnico da agricultura e o nível de instrução do produtor rural. 
Há uma mudança no tipo de emprego: as monoculturas, aliadas com a modernização do campo, acabam com boa parte do emprego rural, que costuma ser degradante para o trabalhador. Agora emprega-se apenas pessoas capacitadas para atividades industriais, como operação de máquinas, ao passo que os mais pobres perdem seu emprego braçal. Em áreas onde a soja entra, como no norte do país, há uma expulsão das populações tradicionais, e quando se expulsa uma população, obviamente não se gera emprego para ela.    
A publicação também destaca que a agropecuária é uma das atividades humanas que causam maior impacto sobre o ambiente natural. O pampa lidera a depredação, com 71% da sua área ocupada com estabelecimentos agropecuários, seguido pelo pantanal (69%), mata atlântica (66%) e cerrado (59%). Por que a produção agrícola tem este caráter predatório?
O impacto negativo não é só na flora, mas também no controle privado dos bens naturais que esse modelo de produção exerce. É a opção brasileira, inclusive dos governos Lula e Dilma. Reinaldo Gonçalves (professor de economia da UFRJ) diz que temos uma “especialização retrógrada”, pois o agronegócio é uma forma subalterna e marginal de entrar no mercado internacional. É preciso exportar commodities em grandes quantidades para equilibrar a balança comercial, o que dá muito poder aos latifundiários e faz o governo refém da bancada ruralista. 
Ao invés de produzirmos bens manufaturados, há apenas os primários: soja, carne, etanol. O impacto do agronegócio no meio ambiente é grande justamente por essa visão mercantil da terra e a influência ruralista grande, basta ver a aprovação do Código Florestal, que atendeu a diversos interesses ruralistas, e vai causar danos maiores no meio ambiente. 
Aproximadamente 90% dos recursos hídricos do país são destinados à produção agrícola, produção industrial e consumo humano, sendo a maior demanda de água proveniente das atividades de agricultura irrigada. Em relação à produção agrícola, para quem vai a água?
A água está sendo usada pelo agronegócio. Há a deterioração da qualidade da água, devido a todos os produtos químicos que são despejados nela, sem que haja consequências para os grandes produtores. Quem acaba responsabilizado são os pequenos produtores: em um assentamento, existe uma burocracia para se abrir um poço, enquanto que os latifundiários usam recursos abundantes de forma irresponsável e não pagam por isso. Não é o pequeno produtor que contamina a água, e sim o grande. 
O estudo aponta como avanços tecnológicos no campo os transgênicos e o uso de máquinas. Qual o impacto dessa tecnologia no meio rural?
A tecnologia é enviesada, pois desconsidera o saber dos povos do campo. O discurso de que “precisamos superar a fome” monopoliza a produção na mão de algumas transnacionais, pois há o mito de que o agronegócio é a única solução possível para acabar com a fome. As empresas só querem lucrar, não estão preocupadas com o país. Elas querem dominar as terras e a produção. Se continuar assim, vamos chegar em um ponto onde para plantar ou colher qualquer coisa vamos ter que pagar royalties a eles.  O agronegócio não é a única opção, e ele deveria ser regulado pelo estado, pois o latifúndio impede os pequenos produtores ao seu redor de crescerem. 
Não sou contra a tecnologia, mas a forma como ela é apropriada pelo agronegócio preocupa. A intenção é o monopólio. É como se fosse uma Reforma Agrária ao contrário, e a impressão que eu tenho é que os ruralistas veem o caminho livre para fazer o que querem.
A agricultura familiar, apesar de abranger 4,4 milhões de estabelecimentos agropecuários do país (84,4%), cobre apenas 80 milhões de hectares (24,3% da área total). A área média dos estabelecimentos com agricultura familiar era de 18,3 hectares, enquanto a dos com agricultura não familiar era de 330 hectares. Como a concentração de terras se relaciona aos outros dados mencionados?
Essa questão está na base de tudo. As principais características do campo brasileiro são a concentração de terras e a violência. O estado não cuida da questão da terra no sentido de beneficiar os pequenos produtores. Ao não regular o agronegócio, o estado destrói o pequeno produtor, que é muito vulnerável sem a sua assistência. 
Medidas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a compra de alimentos da Reforma Agrária para merenda escolar, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), são interessantes, mas insuficientes, pois ao mesmo tempo em que temos essas políticas, investe-se pesadamente no agronegócio. Nós precisamos de políticas estruturantes para os pequenos produtores.
Dessa forma, os interesses das empresas permanecem, e a agricultura familiar, sem os incentivos e políticas necessárias, não tem condições de enfrentá-los. O estado é ineficaz porque beneficia o capital. Não há opção política do governo em beneficiar os pequenos produtores; há muito diálogo, mas de concreto, não existe planejamento político. 
Tudo isso ocorre porque o agronegócio é a opção econômica que o governo adotou para o campo, basta ver o assustador desmatamento na Amazônia. Se a mesma situação perdura há mais de vinte anos, mesmo com uma ampla quantidade de pesquisas e denúncias sobre os impactos que o desmatamento causa, é porque o projeto político do governo para o campo demanda isso. Se continuarmos desse jeito, nosso futuro infelizmente é o do agrobrasil, no qual os pequenos produtores não terão chance de sobreviver e o meio ambiente será cada vez mais depredado para a produção de mercadorias primárias.

quinta-feira

Sociedade apodiense discute integração entre Chapada e Vale e inviabilidade do Perímetro Irrigado proposto pelo DNOCS.

Auditório da CDL - Lotado
Na Noite da ultima terça (06) aconteceu mais um importante debate a cerca do que o movimento campesino tem proposto para a sociedade apodiense com relação ao aproveitamento das águas da barragem de santa cruz. O evento realizado pelo Sindicato dos/as Trabalhadores/as rurais de Apodi/RN teve como objetivo discutir um projeto de desenvolvimento integrado entre Chapada e Vale, projeto este que fortaleça a agricultura familiar de Apodi e os outros seguimentos da sociedade apodiense.

O evento contou com colaboração do Professor João Abner Guimarães Júnior que é Doutor em Engenharia Recursos Hídricos, na oportunidade o estudioso da área explicou a inviabilidade do Projeto que o DNOCS quer instalar em Apodi, listando vários pontos falhos de tal projeto. Em seguida Abner explanou um Projeto Alternativo para o Município de Apodi e região que visa integrar Chapada e vale do Apodi totalmente viável, respeitando o meio ambiente, a saúde humana e as condições técnicas de um projeto responsável.

Edílson Neto - Presidente do STTR
O Auditório da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) estava lotado, o evento contou com a presença de várias representações da sociedade Apodiense, tais como; Agricultores, Professores, Pastores, Estudantes, Políticos, Pescadores, Técnicos Agrícolas, Lojistas, blogueiros.
Edílson Neto, presidente do STTR de Apodi,  enfatizou que "o Movimento dos Trabalhadores não é e nunca foi contra a água ir pra chapada do Apodi, o que queremos é que as águas sirvam pra quem realmente precisa dela, porque que quando a água chega o povo tem que sair?" indagou Edílson Neto.

O Pastor e Professor Weligthon disse que: "A sociedade apodiense precisa ser conscientizada dos perigos que o Projeto do DNOCS pode trazer, essa é uma luta de toda sociedade apodiense, não só o homem do campo vai sofrer os impactos de um projeto mal elaborado, como também o espaço urbano sentirá efeitos negativos se não acordar pra debater esse projeto".

Professor Dr. João Abner Guimarães 
João Abner esclareceu que "o projeto integrado não é um produto acabado e que está em construção, pois a sociedade de Apodi é quem vai decidir de que forma vai utilizar os recursos do Governo Federal, se é para fortalecer o capital do Agronegócio ou a permanência dos filhos de Apodi no campo com vida digna". 

O evento serve de demonstração que o movimento camponês tem provas técnicas substancias para questionar o duvidoso Projeto proposto pelo DNOCS e que tem argumentos para defender a vida e a permanência no campo com dignidade, pois o projeto proposto pelo movimento que se contrapõe ao fadado projeto do DNOCS é totalmente alto sustentável e viável, o que falta na verdade é os gestores deste país ouvir as propostas elaboradas pelos que fazem o movimento.

Mais fotos do evento: 













segunda-feira

As águas da Barragem de Santa Cruz devem serem utilizadas para o fortalecimento da Agricultura familiar de Apodi, afirma estudioso.


O Estudioso professor Dr. João Abner Guimarães* da UFRN estará em Apodi/RN nesta terça feira (06) debatendo sobre a utilização das águas da Barragem de Santa Cruz do Apodi; o estudioso relata que irrigar nos moldes em que o DNOCS propõe se traduz em uma realidade totalmente ultrapassada o que coloca em risco toda a dinâmica social, econômica e ambiental das localidades onde o DNOCS tem instalado seus perímetros irrigados.
Professor João Abner tem acompanhado a
 problemática desde o início do debates.
João Abner virá a Apodi e na oportunidade fará apresentação de um Projeto ousado que trata da utilização das águas da Barragem de Santa Cruz para o favorecimento da Agricultura Familiar de Apodi, desta maneira todos os seguimentos da sociedade apodiense estarão fortalecidos.
O Projeto elaborado por João Abner juntamente com as entidades e agricultores/as de Apodi surgiu em meio as várias duvidas existentes com relação ao projeto do DNOCS que até mesmo tal órgão ainda não teve a capacidade de explica-lo para a sociedade apodiense.
O evento acontecerá na Camara de Dirigentes Logistas de Apodi (CDL) nesta terça feira (06) a partir das 18hoomin.
SERVIÇO:
O que é? APRESENTAÇÃO DO PROJETO ALTERNATIVO PARA AGRICULTURA FAMILIAR DE APODI versus  PERÍMETRO IRRIGADO DA CHAPADA DO APODI.
Quando? No dia 06 de Novembro de 2012, a partir das 18h00min.
Aonde?  Câmara de Dirigentes Lojistas de Apodi, Rua Pe. Benedito Alves – Centro.


*João Abner é Professor da área de Recursos Hídricos da UFRN; tem sua formação profissional nas áreas seguintes: Engenheiro Civil UFRN, Mestre em Recursos Hídricos UFPB, Doutor em Hidráulica e Saneamento EESC/USP; Área de atuação profissional: Recursos Hídricos.

quinta-feira

Convite a população apodiense: Debate Sobre o Aproveitamento das águas da Barragem de Santa Cruz.

Movimento Campesino de Apodi irá apresentar Projeto Alternativo para a agricultura familiar de Apodi e região, em contra-ponto ao Perímetro Irrigado que o DNOCS quer instalar na Chapada do Apodi.
Professor Dr. João Abner - Estudioso da área de Recurso Hídricos  


Convite

Os Movimentos do campo do Rio Grande do Norte e o Sindicato dos Trabalhdaores e das Trabalhadoras Rurais de Apodi vem através deste Convidar Vossa Senhoria para participar de uma palestra que tratará DO PROJETO ALTERNATIVO PARA AGRICULTURA FAMILIAR DE APODI versus  PERÍMETRO IRRIGADO DA CHAPADA DO APODI, que estará acontecendo no dia 06 de Novembro de 2012, a partir das 18h00min no Auditório da Câmara de Dirigentes Lojistas de Apodi.
Na oportunidade o professor Dr. João Abner Guimarães da UFRN fará uma exposição sobre a viabilidade do aproveitamento das águas da Barragem de Santa Cruz de Apodi forma economia, ambiental e socialmente correta.
Sua presença é de suma importância para o Fortalecimento da Agricultura Familiar de Apodi/RN.

SERVIÇO:
O que é? APRESENTAÇÃO DO PROJETO ALTERNATIVO PARA AGRICULTURA FAMILIAR DE APODI versus PERIMETRO IRRIGADO DA CHAPADA DO APODI.
Quando? No dia 06 de Novembro de 2012, a partir das 18h00min.
Aonde? Camara de Dirigentes Lojistas de Apodi, Rua Pe. Benedito Alves – Centro.


quarta-feira

Do diálogo à resistência das mulheres em Apodi.


Por Tica Moreno*
A resistência das mulheres em Apodi é uma expressão do feminismo anticapitalista da MMM. Os direitos que a gente tem nas leis não significam igualdade real na prática se vivemos em um mundo onde predominam os interesses do capital sobre a soberania dos povos. É o que está acontecendo agora, na chapada do Apodi (RN).
Quando a proposta do perímetro irrigado de Apodi apareceu, as mulheres da MMM, em aliança com os movimentos sociais da região, denunciaram que o que estava em jogo eram dois modelos de agricultura.
De um lado, está o agro e hidronegócio. O projeto propõe entregar as terras da Chapada do Apodi e as águas da barragem de Santa Cruz para 5 empresas que produzem frutas para exportação.
Do outro lado, está a agricultura familiar e camponesa e a produção do viver de centenas de famílias, que, a partir da produção em grande parte agroecológica nas pequenas propriedades, representa o terceiro PIB agropecuário do Rio Grande do Norte.
Esse projeto foi apelidado de Reforma Agrária ao contrário. Isso porque o projeto tem por objetivo desapropriar 13.855 hectares de pequenas propriedades para concentrar essa terra nas mãos de 5 empresas da agro-exportação. É uma contradição gigante para o governo, porque, se somarmos os anos dos governos Lula e Dilma, essa quantidade de terra não foi desapropriada para a reforma agrária noRN e, agora, com apenas um decreto, irá das pequenas propriedades para grandes empresas do agronegócio.
Manifestação contra o agro e hidronegócio em Apodi
A soberania alimentar, a reforma agrária e a agroecologia fazem parte da nossa luta por igualdade e autonomia econômica das mulheres, que se articula com uma mudança estrutural no modelo de (re)produção e consumo. No vídeo caseiro abaixo, a Conceição Dantas, conta como as mulheres tiveram que lutar muito pra conquistar a terra e as condições para produzir, como água e infra-estrutura. E da mesma forma tem que lutar para permanecer na terra. Perder as terras significa perder a autonomia econômica e ter que buscar outras formas de sobreviver, provavelmente na periferia das cidades. Mais uma contradição para um governo que quer acabar com a pobreza, mas opera este projeto que privilegia a reconcentração de terra, empurrando mais cidadãs e cidadãos para a exclusão social.
“Não adianta conquistarmos direito a terra e ao crédito, quando o capital avança no campo e o agronegócio reconstrói sua força por dentro do nosso governo e ameaça todas as nossas conquistas com a conivência de quem deveria nos proteger”  Kika- vice-presidente do STTR-Apodi.
Se, em um primeiro momento, a nossa pressão se direcionou para um diálogo com o governo para revogar este projeto, agora estamos em um momento de articular a luta de resistência, pois o governo demonstra ter escolhido um lado, ao implementar a proposta do agro e hidronegócio, e já iniciou a indenização de 35 famílias que serão atingidas pela primeira fase da construção do perímetro irrigado.
Estamos em marcha até que todas sejamos livres. No Brasil, isso significa, também, até que o campo esteja livre do agronegócio.

Lutar e resistir pela Chapada do Apodi!

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segunda-feira

Estudo revela: Coquetel de agrotóxicos ingerido no consumo de frutas e verduras pode causar Alzheimer e Parkinson


Comer cinco frutas e legumes por dia é bom para a saúde. Não tão bom é o “coquetel” de pesticidas ingerido no processo: a mistura dessas substâncias químicas pode multiplicar seus efeitos tóxicos em proporções tão surpreendentes quanto preocupantes, segundo os resultados de um estudo preliminar publicado na revista científicaPloS One.

A reportagem é do Le Monde e reproduzida no Portal UOL, 08-08-2012

Os testes toxicológicos sistemáticos conduzidos dentro do regulamento europeu Reach visam às substâncias uma por uma. “Sabe-se muito pouco sobre seus efeitos combinados, sendo que somos literalmente cercados por combinações de venenos”, explica o principal autor do estudo, o toxicólogo Michael Coleman, da Universidade de Aston, na Inglaterra.
Sua equipe comparou o efeito isolado e o efeito combinado, sobre células de nosso sistema nervoso central, de três fungicidas encontrados com frequência nas prateleiras de hortifrúti: o pirimetanil, o ciprodinil e o fludioxonil.

Resultado: os danos infligidos às células são até vinte ou trinta vezes mais graves quando os pesticidas são associados. “Substâncias que são conhecidas por não afetarem a reprodução humana e o sistema nervoso e não serem cancerígenas, combinadas possuem efeitos inesperados”, resume um dos autores do estudo, o biólogo molecular Claude Reiss, ex-diretor de pesquisa do CNRS e presidente da associação Antidote Europe.

“Observamos o agravamento de três tipos de impactos”, detalha o pesquisador francês: “A viabilidade das células é degradada; as mitocôndrias, que são as ‘baterias’ das células, não conseguem mais alimentá-las com energia, o que desencadeia a apoptose, ou seja, a autodestruição das células; por fim, as células são submetidas a um stress oxidante muito poderoso, possivelmente cancerígeno e que pode levar a efeitos em cascata”.
Entre as possíveis consequências de tais agressões sobre as células, os pesquisadores citam o risco de uma vulnerabilidade crescente a doenças neurodegenerativas como o Mal de Alzheimer, de Parkinson ou a esclerose múltipla. “Nosso estudo aborda um pequeno número de substâncias, trazendo mais perguntas do que respostas, mas esses efeitos foram evidenciados em doses muito pequenas, concentrações próximas às encontradas em nossos alimentos”, observa o professor Coleman.

O cientista considera urgente popularizar esse tipo de teste, apesar das milhares de combinações possíveis: “Isso permitiria determinar se as misturas são nocivas, para ajudar os agricultores a escolher os produtos que eles utilizam”. O fato de conduzir esses estudos em células humanas e não em ratos, como acontece no procedimento Reach, permitiria diminuir os prazos e os custos, ao mesmo tempo em que fornecem resultados mais confiáveis. “A maior parte das substâncias químicas não são testadas corretamente: não somos ratos de 70 quilos!”, reclamaClaude Reiss.

Para o Movimento pelo Direito e pelo Respeito das Gerações Futuras (MDRGF), que cofinanciou o estudo, esses testes são ainda mais necessários pelo fato de que um terço das frutas e legumes fiscalizados pela Direção Geral da Concorrência, do Consumo e da Repressão de Fraudes contém resíduos de vários pesticidas.

“Em 2008, detectamos em um mesmo cacho de uvas os três produtos testados pelo professor Coleman”, lembraFrançois Veillerette, porta-voz do MDRGF. Na época, análises encomendadas pela associação haviam revelado que quase todas as uvas vendidas no grande varejo continham múltiplos pesticidas, totalizando oito substâncias diferentes por cacho, em média.

A associação pede para que a Comissão Europeia “lance sem demora uma estratégia de avaliação global das misturas de produtos químicos” e que “abaixe significativamente os limites máximos de resíduos tolerados nos alimentos, em um cuidado elementar de precaução”.
Fonte: Site do IHU.

Desigualdade rural persiste devido à opção pelo agronegócio, diz especialista.


Por José Coutinho Júnior
Da Página do MST
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou o Atlas do Espaço Rural Brasileiro, publicação que integra os dados do Censo Agropecuário 2006 com pesquisas sociais, populacionais, ambientais e econômicas. Segundo o Instituto, o objetivo da publicação é retratar a realidade territorial do campo brasileiro. Os dados, referentes à educação no campo, tecnologia e modernização do meio rural brasileiro, uso dos recursos naturais e concentração de terras, mostram um campo brasileiro desigual, no qual uma minoria segue privilegiada enquanto a maioria dos agricultores vive em situações precárias. 
De acordo com José Juliano De Carvalho Filho, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP e membro da Associação Brasileira da Reforma Agrária (ABRA), “Tudo isso ocorre porque o agronegócio é a opção econômica que o governo adotou para o campo”. Em entrevista à Página do MST, o professor comentou os dados apresentados pelo IBGE, e aponta que a realidade territorial do campo brasileiro é dura para os mais pobres. 
Confira a entrevista:     
Dos proprietários rurais que administravam diretamente propriedades agropecuárias, 3,9 milhões de estabelecimentos, ou 39%  do total, eram analfabetos ou sabiam ler e escrever sem terem frequentado a escola, e 43% não tinham completado o ensino fundamental. Por que esse percentual tão grande?
Essa população não existe para o estado, e quando existe, as políticas para ela são de baixa qualidade. É só ver a distância que as crianças assentadas precisam percorrer para chegar à escola. Além disso, os professores recebem salários baixos, e dão aulas a muitos alunos. Para os pobres do campo, a política é pouco efetiva.
Já a concentração dos maiores percentuais de produtores proprietários com nível médio de instrução (regular e profissionalizante) ocorre nas áreas de domínio do complexo agroindustrial da soja e de outras commodities de exportação, demonstrando a correlação entre o aprimoramento técnico da agricultura e o nível de instrução do produtor rural. 
Há uma mudança no tipo de emprego: as monoculturas, aliadas com a modernização do campo, acabam com boa parte do emprego rural, que costuma ser degradante para o trabalhador. Agora emprega-se apenas pessoas capacitadas para atividades industriais, como operação de máquinas, ao passo que os mais pobres perdem seu emprego braçal. Em áreas onde a soja entra, como no norte do país, há uma expulsão das populações tradicionais, e quando se expulsa uma população, obviamente não se gera emprego para ela.    
A publicação também destaca que a agropecuária é uma das atividades humanas que causam maior impacto sobre o ambiente natural. O pampa lidera a depredação, com 71% da sua área ocupada com estabelecimentos agropecuários, seguido pelo pantanal (69%), mata atlântica (66%) e cerrado (59%). Por que a produção agrícola tem este caráter predatório?
O impacto negativo não é só na flora, mas também no controle privado dos bens naturais que esse modelo de produção exerce. É a opção brasileira, inclusive dos governos Lula e Dilma. Reinaldo Gonçalves (professor de economia da UFRJ) diz que temos uma “especialização retrógrada”, pois o agronegócio é uma forma subalterna e marginal de entrar no mercado internacional. É preciso exportar commodities em grandes quantidades para equilibrar a balança comercial, o que dá muito poder aos latifundiários e faz o governo refém da bancada ruralista. 
Ao invés de produzirmos bens manufaturados, há apenas os primários: soja, carne, etanol. O impacto do agronegócio no meio ambiente é grande justamente por essa visão mercantil da terra e a influência ruralista grande, basta ver a aprovação do Código Florestal, que atendeu a diversos interesses ruralistas, e vai causar danos maiores no meio ambiente. 
Aproximadamente 90% dos recursos hídricos do país são destinados à produção agrícola, produção industrial e consumo humano, sendo a maior demanda de água proveniente das atividades de agricultura irrigada. Em relação à produção agrícola, para quem vai a água?
A água está sendo usada pelo agronegócio. Há a deterioração da qualidade da água, devido a todos os produtos químicos que são despejados nela, sem que haja consequências para os grandes produtores. Quem acaba responsabilizado são os pequenos produtores: em um assentamento, existe uma burocracia para se abrir um poço, enquanto que os latifundiários usam recursos abundantes de forma irresponsável e não pagam por isso. Não é o pequeno produtor que contamina a água, e sim o grande. 
O estudo aponta como avanços tecnológicos no campo os transgênicos e o uso de máquinas. Qual o impacto dessa tecnologia no meio rural?
A tecnologia é enviesada, pois desconsidera o saber dos povos do campo. O discurso de que “precisamos superar a fome” monopoliza a produção na mão de algumas transnacionais, pois há o mito de que o agronegócio é a única solução possível para acabar com a fome. As empresas só querem lucrar, não estão preocupadas com o país. Elas querem dominar as terras e a produção. Se continuar assim, vamos chegar em um ponto onde para plantar ou colher qualquer coisa vamos ter que pagar royalties a eles.  O agronegócio não é a única opção, e ele deveria ser regulado pelo estado, pois o latifúndio impede os pequenos produtores ao seu redor de crescerem. 
Não sou contra a tecnologia, mas a forma como ela é apropriada pelo agronegócio preocupa. A intenção é o monopólio. É como se fosse uma Reforma Agrária ao contrário, e a impressão que eu tenho é que os ruralistas veem o caminho livre para fazer o que querem.
A agricultura familiar, apesar de abranger 4,4 milhões de estabelecimentos agropecuários do país (84,4%), cobre apenas 80 milhões de hectares (24,3% da área total). A área média dos estabelecimentos com agricultura familiar era de 18,3 hectares, enquanto a dos com agricultura não familiar era de 330 hectares. Como a concentração de terras se relaciona aos outros dados mencionados?
Essa questão está na base de tudo. As principais características do campo brasileiro são a concentração de terras e a violência. O estado não cuida da questão da terra no sentido de beneficiar os pequenos produtores. Ao não regular o agronegócio, o estado destrói o pequeno produtor, que é muito vulnerável sem a sua assistência. 
Medidas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a compra de alimentos da Reforma Agrária para merenda escolar, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), são interessantes, mas insuficientes, pois ao mesmo tempo em que temos essas políticas, investe-se pesadamente no agronegócio. Nós precisamos de políticas estruturantes para os pequenos produtores.
Dessa forma, os interesses das empresas permanecem, e a agricultura familiar, sem os incentivos e políticas necessárias, não tem condições de enfrentá-los. O estado é ineficaz porque beneficia o capital. Não há opção política do governo em beneficiar os pequenos produtores; há muito diálogo, mas de concreto, não existe planejamento político. 
Tudo isso ocorre porque o agronegócio é a opção econômica que o governo adotou para o campo, basta ver o assustador desmatamento na Amazônia. Se a mesma situação perdura há mais de vinte anos, mesmo com uma ampla quantidade de pesquisas e denúncias sobre os impactos que o desmatamento causa, é porque o projeto político do governo para o campo demanda isso. Se continuarmos desse jeito, nosso futuro infelizmente é o do agrobrasil, no qual os pequenos produtores não terão chance de sobreviver e o meio ambiente será cada vez mais depredado para a produção de mercadorias primárias. 

quinta-feira

CONVITE: Debate Sobre Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Apodi-Mossoró.

Clique na imagem para ampliar.

A equipe de Mobilização social solicita o apoio e a participação de todos os munícipes de Apodi e região para participarem de uma Palestra do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Apodi-Mossoró que acontecerá em Apodi no dia 26 de Outubro no auditório da Casa da Cultura às 08 horas, onde o poder público, a sociedade civil e os usuários de água, sendo eles, irrigantes, donos de açudes, poços, agricultores. O evento é aberto para todos os municípios: Almino Afonso, Campo Grande, Caraúbas, Felipe Guerra, Itaú, Janduís, Lucrécia, Martins, Messias Targino, Olho D"água do Borges, Patu, Rafael Godeiro, Riacho da Cruz, Rodolfo Fernandes, Severiano Melo, Umarizal, Viçosa são todos convidados.

Fonte: Informações repassadas por Márcia Egina.

quarta-feira

A silenciosa praga das lavouras.

Regiões agrícolas com forte uso de agrotóxicos têm mais suicídios e mortes por câncer.


A reportagem é de Carla Rocha, Fábio Vasconcellos Natanael Damasceno e publicado pelo jornal O Globo, 03-06-2012.



José Andrade teve câncer de pele no nariz e num braço, amputou um dedo e sofre de depressão. Com problemas de surdez, vive com a irmã Maria Geralda. Eles já perderam dois irmãos, vítimas de câncer.



Veneno em doses diárias



A s lesões vermelhas no rosto, que vez ou outra se espalhavam para braços e pernas, não o fizeram parar de roçar a lavoura. Era seu ofício desde os 15 anos, de sol a sol. Por anos, conviveu com crises, mais ou menos intensas. Teve que amputar o dedo indicador direito, que encaroçou como uma espiga de milho. Para as lesões num braço, quase no osso, precisou fazer enxertos de pele. A audição, frágil, evoluiu para uma quase surdez. Vinte e cinco anos depois de os sintomas surgirem, mais de 40 dias de internação e biópsias, José de Andrade, de 77 anos, descobriu que podia ser mais uma vítima do uso indiscriminado de agrotóxicos. Era só ele e a enxada, sem capa ou máscara. Às vezes, até sem galochas.



- A gente macerava o veneno, que era em pó, com a mão, antes de misturar na água. Depois sentava para almoçar. Durante 30 anos usei os produtos sem proteção. Pegava sol, chuva, tudo. Aplicava contra o vento; saía todo molhado. Não sabia do risco - conta o agricultor, que estudou muito pouco e não entendia as instruções do rótulo dos produtos.



Um levantamento do Globo com base em dados do Datasus e do IBGE revela que o Rio tem altas taxas de mortalidade por câncer e suicídio - que pesquisas científicas sugerem ter associação com o uso de agrotóxicos - em três regiões agrícolas. O mapa de ocorrências desses dois problemas coincide com as manchas de produtividade de tomate, escolhido para a pesquisa por ser uma das principais culturas do estado e ter apresentado alto índice de resíduos tóxicos nas últimas análises.



O Centro-Sul aparece na frente em mortes causadas por neoplasias, com 133 casos por cem mil habitantes (22% acima da média, que é de 109); depois vem a Região Serrana, com 125 (14%); e o Noroeste Fluminense com 117 (7%). Um detalhe salta das estatísticas: no Centro-Sul, onde estão grandes produtores de tomate, como Paty do Alferes, os índices são acentuados entre adultos de 40 a 49 anos. Nessa região, os índices estão mais de 52% acima da média do estado.



O suicídio é mais frequente no campo. Enquanto a taxa na Região Metropolitana é de 1,58 caso por cem mil habitantes, no Noroeste Fluminense chega a 5,89 (51% acima da média, que é de 3,9), a mais alta. Na Região Serrana, são 5,25 casos por cem mil (34%); e no Centro-Sul, 5,50 (41%).



No Brasil, agrotóxico movimenta US$ 7 bi



Maior consumidor mundial de venenos agrícolas, que, em 2010, movimentaram US$ 7,3 bilhões, o Brasil responde hoje por 10% do mercado internacional (mais de 900 mil toneladas por ano). As cifras são também de um mercado recheado de polêmicas, como a dos possíveis efeitos desses produtos, o que divide fabricantes e pesquisadores. Para entender a realidade que está por trás desses números, repórteres do Globo foram buscar a história contada pelos próprios agricultores.

O que José de Andrade relata é uma rotina marcada por uma mistura de necessidade extrema e ignorância absoluta sobre os efeitos prejudiciais dos agrotóxicos. Aos 40 anos, sem qualquer explicação para uma série de distúrbios psicológicos, ele saiu de seu pequeno sítio em Secretário, distrito de Petrópolis, e foi caminhando até Santana do Deserto, em Minas Gerais.


- Deu problema na mente. Um dia, saí andando sem querer voltar. Dormia no meio do mato. Depois de 40 dias, o pensamento assentou. Voltei para casa - conta.



Ele passou a beber em excesso e só aquietou das crises de depressão, durante as quais mal se levantava da cama, recentemente, depois de ser tratado no Centro de Tratamento Oncológico (CTO), hospital privado de Petrópolis, que atende pelo SUS. Ele teve alta depois de tratar um câncer num dedo, que perdeu após uma necrose, num braço e no nariz.



Dois irmãos de José morreram de câncer. Um que o ajudava na lavoura teve um tipo semelhante ao dele, amputou um braço e faleceu aos 50 anos. O outro, que não tinha contato direto com agrotóxicos, morreu aos 70, vítima de um câncer na garganta. Todos foram criados em áreas de plantações.



Estudioso do assunto - que já teve mais de 30 artigos científicos publicados -, Armando Meyer, professor adjunto e diretor do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) da UFRJ, fez parte de uma equipe que, em 2003, constatou um risco maior de morte por câncer de esôfago e estômago entre agricultores da Região Serrana em relação às populações do Rio e de Porto Alegre, que registram altas taxas da doença. Dependendo da idade, o agricultor chegava a ter 300% mais chance de morte.



- O poder econômico e político do agronegócio no país é imenso. Os primeiros passos que tornaram o Brasil um jogador pesado do agronegócio foram dados nos anos 70, quando um decreto do governo determinou que uma parte do financiamento agrícola deveria ir para compra deste tipo de insumo. E o segmento não para de crescer em países como Brasil, China, Índia e Rússia. A situação de hoje ainda é o legado do passado - observa Meyer. - O agricultor usa o produto de forma errada. A culpa não é dele, mas do governo.



Professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Unicamp e pesquisador dos efeitos do agrotóxico,Ângelo Trapé analisou os dados obtidos pelo Globo e não considerou as relações um indicativo importante:



- Estudos epidemiológicos que investigam supostas relações entre câncer e agentes ambientais são longos, até de décadas. Não é possível qualquer correlação com os dados apresentados. Além disso, não há um estudo clínico epidemiológico que indique que são cancerígenos os agrotóxicos registrados no país, aos quais aquelas populações poderiam estar potencialmente expostas.



Desde 2000, a Anvisa já retirou de circulação 11 ingredientes ativos de agrotóxicos considerados nocivos à saúde. Dois são analisados com indicações de banimento e 17 estão à venda com restrições. O gerente geral de toxicologia do órgão, Luiz Cláudio Meirelles, explica que o país lida com um passivo que exige uma série de estudos e avaliações até a retirada de um produto do mercado. Para ele, os dados obtidos pelo Globo merecem ser investigados:



- Há uma grande preocupação em torno dos efeitos crônicos a longo prazo, no agricultor e no consumidor. Alguma coisa acontece nessas áreas do interior para registrar taxas de câncer acima da média. O levantamento aborda uma questão importante.



O lavrador Oséias de Oliveira Rodrigues morreu devido a um câncer no cérebro em 2009, aos 37 anos. Ele estava na lavoura desde os 8 anos e deixou dois filhos. Segundo sua irmã, Maria José Rodrigues, de 51 anos, nunca usou proteção durante a pulverização dos produtos na lavoura em Teresópolis:



- Ele sentia dores de cabeça e tontura mas, nos postos de saúde, receitavam dipirona e remédios para enjoo. Nunca associaram as dores ao veneno. Sequer perguntavam em que ele trabalhava.



Responsável pelo departamento de Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho e ao Ambiente do Instituto Nacional do Câncer, Ubirani Otero afirma que o país precisa vencer o "silêncio epidemiológico".



- O profissional de saúde atende um paciente com câncer e não pergunta em que ele trabalha. Mais de 50% das pessoas com câncer na Serra se tratam no Inca - afirma Otero, que costuma dizer que agricultores tomam "banho" de agrotóxico.



Breno Braga, médico do Programa Saúde da Família que trabalha há oito anos na localidade de Vargem Alta , no distrito de São Pedro da Serra, em Nova Friburgo, diz que ligou casos de pacientes com depressão e suicídio a venenos agrícolas. Maior produtora de flores do Rio, a cidade tem plantações com uso intenso de agroquímicos.



- É muito difícil estabelecer uma relação de causa e efeito, mas a localidade registra muitos casos de depressão e suicídio, que impressionam porque atingem jovens entre 20 e 30 anos. É muito comum eles beberem o próprio agrotóxico - afirma Braga.

Fonte: Site IHU

Transposição do São Francisco tem mais dois lotes parados



O festival de complicações que atingem o projeto de transposição do rio São Francisco ganhou mais um problema. As obras em outros dois lotes foram interrompidas, nos últimos dias, pelos consórcios das empreiteiras responsáveis. De acordo com o Ministério da Integração Nacional, que comanda o projeto, a decisão de paralisar as obras foi tomada "unilateralmente" pelas empresas. O motivo não foi informado.
A reportagem é de Daniel Rittner e publicada pelo jornal Valor, 24-10-2012.

Ambos os lotes fazem parte do eixo leste da transposição, no interior de Pernambuco e da Paraíba, e têm conclusão prevista até o quarto trimestre de 2014. A promessa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era entregar as obras até o fim de 2010, beneficiando 12 milhões de pessoas no Nordeste, mas uma sucessão de dificuldades foi jogando o prazo cada vez mais para a frente. Até serviços executados pelo Exército foram alvo de irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Em agosto, a Integração Nacional rescindiu o contrato de um trecho tocado por um consórcio que tinha a Delta Construção, pivô do escândalo que resultou na CPI do Cachoeira, entre suas integrantes.

Agora, foram paralisados os lotes 10 e 12, que já passando por uma desaceleração gradual dos trabalhos. O lote 10, com investimentos de R$ 274 milhões, tem 55,7% dos serviços já executados e é tocado pelo consórcio Emsa / Mendes Jr. As obras, concentradas em Pernambuco, somam 39 quilômetros de extensão e englobam canal, aqueduto, pontes e reservatório. Foram desembolsados R$ 186 milhões até hoje.

O lote 12 tem 28 quilômetros de extensão e registra 33% de avanço físico. Com investimento total de R$ 179,1 milhões, já foram pagos R$ 140 milhões. As obras envolvem canais e túnel, dividindo-se entre Pernambuco e Paraíba. OASGalvãoBarbosa Mello e Coesa formam o consórcio responsável pelos trabalhos.

O ministério informou ter notificado as empresas para que retomem "imediatamente" a execução das obras e advertiu sobre a possibilidade de aplicar "as devidas sanções legais", sem entrar em detalhes. Os contratos estão vigentes. "As empresas devem, conforme estipulado, entregar os serviços executados em perfeito estado", alertou o ministério.

Orçada em R$ 8,2 bilhões por enquanto, a transposição do São Francisco ainda não tem uma projeção definitiva de custos, já que outras cinco licitações complementares devem ser feitas nos próximos meses. As concorrências abrangem lotes que tiveram obras interrompidas nos municípios de Salgueiro (PE), Verdejante (PE), Mauriti (CE), São José de Piranhas (PB) e Floresta (PE). Elas estavam prometidas para este ano, mas os editais ainda não saíram, o que pode atrapalhar ainda mais o cronograma do projeto.

Dos 16 lotes que formam o projeto de transposição do São Francisco, sete estão em atividade e um já foi concluído - o canal de aproximação do eixo norte, em Cabrobó (PE), tocado pelo Departamento de Engenharia e Construção (DEC) do Exército.

Em agosto, foi concluída uma nova licitação para as obras do lote 5, com um contrato de R$ 520 milhões. A concorrência foi vencida pela Serveng Civilsan.

A transposição, batizada formalmente de projeto de integração do rio São Francisco com as bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional, visa assegurar a oferta de água a 391 municípios de quatro Estados: Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Atualmente, mais de quatro mil trabalhadores estão nos canteiros, segundo o ministério.

O projeto prevê a retirada contínua de 26,4 metros cúbicos por segundo de água, o equivalente a 1,42% da vazão garantida pela barragem de Sobradinho, dos quais 16,4 m3 /s seguirão para o eixo norte e 10 m3 /s para o eixo leste. Nos anos em que o reservatório de Sobradinho estiver com excesso de água, o volume captado poderá ser ampliado para até 127 m3 /s, aumentando a oferta de água para múltiplos usos.

Após sucessivos ajustes nos cronogramas, a previsão do governo para a entrega do eixo leste é no fim de 2014. No eixo norte, a estimativa é o fim de 2015. Mesmo assim, há quem considere esses prazos otimistas demais.

Fonte: Site IHU.

RN. Projeto do perímetroirrigado da chapada do Apodi. Um contrassenso.


Entrevistaespecial com Antonio Nilton Bezerra Júnior

“Essaluta não é apenas dos camponeses e camponesas de Apodi. A luta em defesa daChapada do Apodi se tornou uma luta nacional de todos aqueles e aquelas quedefendem a dignidade das comunidades camponesas”, diz o sociólogo.

Confira a entrevista.
Na chapada do Apodi,localizada na divisa dos estados do RioGrande do Norte e do Ceará,há uma “disputa por dois modelos de agricultura”, diz Antonio Nilton Bezerra Júnior,da Comissão Pastoral da Terra de Mossoró à IHU On-Line. Um dos modelos está“enraizado” nas comunidades da região, e tem uma preocupação com abiodiversidade, a distribuição de renda e democratização da água e da terra. Ooutro, ao contrário, “provoca a concentração de terra, de água e de renda, quedestrói a natureza, polui as águas e o solo, destrói a vida”.
Segundo Bezerra Júnior,a subsistência de milhares de famílias que trabalham com a agricultura epecuária está ameaçada pelo projeto “PerímetroIrrigado de Apodi”, que prevê entregar as “terras da chapada do Apodi e aágua da barragem deSanta Cruz, que tem capacidade de armazenar 600 milhões demetros cúbicos, a cinco grandes empresas da fruticultura irrigada”. Para ele, oprojeto é inviável e o governo, apesar de reconhecer que “os perímetrosirrigados do Nordeste não foram viáveis”, insiste na iniciativa. “Dados dopróprio governo mostram que há no Nordeste mais de 140 mil hectares de terrasem perímetro irrigados ociosos, sem funcionar”, argumenta. E dispara: “Queremtransformar um território camponês produtor de alimentos saudáveis em uma zonade produção de frutas para exportação com base na utilização em grande escalade agrotóxicos. E, com isso, transformar uma pequena parcela da população localem mão de obra barata e em condições sub-humanas, características doagronegócio brasileiro”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o sociólogo assinala que oprojeto “PerímetroIrrigado de Apodi” é uma iniciativa do deputado Henrique Alves (PMDB –RN). “Em uma visita ao município de Apodi chegou a afirmar que o projetode irrigação irá sair porque ele tem poder, que a presidenta Dilma precisado seu apoio, pois ele é líder de 80 deputados, e a partir de fevereiro de 2013será o presidente da Câmara dos Deputados. Essas afirmações de demonstração desoberba são constantes”, assinala.
Antonio Nilton BezerraJúnior é sociólogo e membro da Comissão Pastoral da Terra – CPTde Mossoró-RN.


Confira a entrevista.

IHU On-Line – Na chapadado Apodi, localizada na divisa entre os estados do Rio Grande do Norte e doCeará se trava uma intensa disputa entre agricultores e o agronegócio. O queestá em jogo nessa região?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Está muito clara a disputa por dois modelos deagricultura. Um que preserva a vida, a biodiversidade, que distribui renda,democratiza a terra e a água, ou seja, que tem como objetivo principal areprodução da vida. Esse modelo está enraizado nas diversas comunidadesda Chapada, seja nas áreas de assentamentos da reforma agrária oucomunidades de pequenos agricultores e agricultoras. Essas comunidades eassentamentos vêm demonstrando que é possível viver bem no campo, produzindoalimentos saudáveis apesar do pouco investimento por parte dos governos. Poroutro lado, há outro modelo que provoca a concentração de terra, de água e derenda, que destrói a natureza, polui as águas e o solo, destrói a vida. Essemodelo tem como principal objetivo o lucro das grandes empresas em detrimentoda vida dos camponeses e camponesas. Portanto, o que está em jogo é a água, aterra fértil, a biodiversidade, a vida das pessoas.

IHU On-Line – Qual é aimportância da chapada do Apodi para a agricultura do Rio Grande do Norte. Quemsão os agricultores que se encontram no território, o que produzem e quetécnicas de cultivo utilizam?

Antonio Nilton BezerraJúnior – O município de Apodi, no Rio Grande do Norte, tem na agriculturasua principal atividade econômica. Uma característica dessa agricultura é queela está praticamente nas pequenas propriedades camponesas. Toda a produçãoagrícola e pecuária de Apodiestá nas pequenas propriedades. É na Chapada do Apodique está a segunda maior produção de mel de abelha do Brasil, um dos maioresrebanhos de caprinos do país. Na chapadado Apodi vivem hoje milhares de famílias que têm na agriculturae pecuária a sua principal atividade. São nas comunidades e nos assentamentosda Chapada do Apodique diversas experiências de produção agroecológicas estão sendo desenvolvidas.Tudo isso faz com que o município de Apoditenha o terceiro PIB agropecuário do Rio Grande do Norte,estando à frente de municípios que têm a forte presença do agronegócio como Assú, Ipanguassu, Carnaubais, Baraúna, além deoutros. E repito: toda a produção agropecuária do município de Apodi está naspequenas propriedades dos camponeses e camponesas. Essa população camponesa deApodi há vários anos vem desenvolvendo técnicas de produção agroecológicas.Destacamos a produção e beneficiamento do mel de abelha, a produção de algodãoorgânico, arroz orgânico, produção de polpas de frutas da região etc. Tudo issofaz de Apodi umareferência em agricultura agroecológica.

IHU On-Line – O quepropõe o projeto apresentado pelo governo para a Chapada do Apodi?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Esse projeto do perímetro irrigado da Chapada do Apodi é umcontrassenso a tudo o que hoje se constrói na chapada e se discute no mundo. Éum projeto que prevê entregar as terras da chapada do Apodi e a água da barragem de Santa Cruz,que tem capacidade de armazenar 600 milhões de metros cúbicos, a cinco grandesempresas da fruticultura irrigada. É um projeto que não deu certo em lugaralgum. O próprio governo reconhece que os perímetros irrigados do Nordeste nãoforam viáveis. Dados do próprio governo mostra que há no Nordeste mais de 140mil hectares de terras em perímetro irrigados ociosos, sem funcionar. Esseprojeto está propondo irrigar cinco mil hectares de terra em sua primeira fasepara produzir cacau – que é totalmente desconhecido na região –, uva, goiaba,com base na utilização em grande escala de agrotóxicos e sob o domínio de cincogrande empresas. Querem transformar um território camponês produtor dealimentos saudáveis em uma zona de produçãode frutas para exportação com base na utilização em grande escala deagrotóxicos. E, com isso, transformar uma pequena parcela da população local emmão de obra barata e em condições sub-humanas, características do agronegóciobrasileiro.

IHU On-Line – Quaisserão os principais impactos ambientais e sociais se o projeto for executado?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Em primeiro lugar, terá a expulsão de centenas defamílias de suas terras, fazendo com que comunidades inteiras desapareçam. Issoirá causar graves problemas sociais no município e região. Basta ver o exemploda Chapada do Apodipelo lado do Ceará, nos município de Limoeirodo Norte e Russas.Aumentarão também a prostituição, o número de pessoas com câncer, o trabalhoprecarizado etc. Por outro lado, haverá fortes impactos ambientais, como odesmatamento da Caatinga,a contaminação das águas e do solo, a morte das abelhas, o desaparecimento dosanimais silvestres etc.

IHU On-Line – Quais sãoas principais irregularidades do projeto?

Antonio Nilton BezerraJúnior – São várias as aberrações. Em primeiro lugar, asfamílias que serão removidas de suas comunidades não foram consultadas. No Relatório de Impacto Ambiental –EIA-RIMA não se fala na remoção de famílias; é como se no localnão existissem pessoas. Ele também não leva em conta a produção agropecuária,omite os impactos dos agrotóxicos para a população local, não faz nenhumareferência à questão da saúde humana. Na área existe um sítio arqueológico, Lajedo de Soledade,que também passa despercebido pelo EIA-RIMA.Além disso, especialistas questionam a viabilidade desse projeto, pois acapacidade da barragem não é suficiente para irrigar cinco mil hectares. Alémdo mais, existem outros projetos vinculados à barragem, como duas adutoras queirão abastecer dezenas de cidades da região.

IHU On-Line – Por que asorganizações sociais da região afirmam que o projeto se trata
de uma “reforma agráriaao contrário”?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Isso está muito claro. O decreto desapropria13.855 hectares. Toda essa terra está hoje localizada em pequenas propriedades.Com o projeto haverá uma concentração de terra por cinco grandes empresas. Naregião, nos anos 1990, ocorreram muitas desapropriações para a reforma agrária.Ocorreu uma descentralizaçãoda terra e a constituição de um território camponês. Caso esse projeto sejaaprovado, tudo isso vai por “água abaixo”. Se fizermos um comparativo comdesapropriação para a reforma agrária, teremos clareza da dimensão desastrosadesse projeto para com a reforma agrária. Nos últimos sete anos, último mandatodo governo Lula einício do mandato de Dilma, no Rio Grande do Norte, a desapropriação parareforma agrária praticamente não aconteceu. Com o decreto para o projeto doperímetro irrigado, destinado às cinco grandes empresas, tiram-seaproximadamente 14.000 hectares das pequenas propriedades. É um contrassensomuito grande. Uma estupidez.

IHU On-Line – Quem é queestá por trás do projeto e a que interesses atende?

Antonio Nilton BezerraJúnior – O principal defensor desse projeto até agora temsido o deputado federal HenriqueAlves (PMDB/RN), líder do partido na Câmara. O diretor geral doDepartamento Nacional deObras Contras as Secas – DNOCS é indicação sua. Ele tempressionado muito o governo federal para que essa obra seja executada. O grandeinteressado nesse projeto é o agronegócio. Mas há também interesse por partedas empresas da construção que irão construir o canal. Com certeza há muitosinteresses nada republicanos envolvidos nessas grandes obras. É bom lembrarque, no mês de janeiro deste ano, aControladoriaGeral da União – CGU divulgou um relatório, fruto dafiscalização em projetos do DNOCS, e constatou várias irregularidades que,segundo ela, causou um prejuízo de aproximadamente 300 milhões aos cofrespúblicos. Desses projetos que apresentaram irregularidades estavam vários emexecução no Rio Grandedo Norte. Foram constatadas também diversas irregularidades noperímetro irrigado da Chapadado Apodi no lado do Ceará, Limoeiro do Norte e Russas. Foramconstatados superfaturamentos nas obras, pagamento de serviços sem seremexecutados, empresas fantasmas etc. Esse escândalo derrubou o então diretorgeral do DNOCS,apadrinhado político do deputadoHenrique Alves. O que nos estranha é que antes de qualquerexplicação a respeito dessas irregularidades, o mesmo deputado consegue indicarum novo apadrinhado seu para o cargo de diretor geral, como se não tivesse nadaa explicar.

IHU On-Line – É verdadeque o deputado Henrique Alves (PMDB/RN) se orgulha de dizer
nas rádios da região queo projeto de irrigação do Apodi sairá porque ele manda na presidente Dilma:“Ela come na minha mão!”, diz ele?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Constantemente o deputado Henrique Alvesprocura demonstrar que tem influência no governo Dilma. Em uma visitaao município de Apodi chegou a afirmar que o projeto de irrigação irá sairporque ele tem poder, disse que a presidente Dilma precisa do seu apoio, pois ele élíder de 80 deputados. Afirmou que a partir de fevereiro de 2013 será opresidente da Câmara dos Deputados. Essas afirmações de demonstração de soberbasão constantes.

IHU On-Line – Como seencontra no momento a execução do projeto?

Antonio Nilton BezerraJúnior – O projeto se encontra na fase de pagamento deindenizações para as famílias que irão ser atingidas pela construção do canal.Segundo o DNOCS,35 propriedades serão atingidas nessa fase. A ordem de serviço já foi assinada.

IHU On-Line – Como osagricultores estão organizados para resistir ao projeto?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Existe uma unidade de todos os movimentos sociaisem se contrapor a esse projeto, e um compromisso de resistir a suaimplementação. Estamos trabalhando em três frentes de atuação: junto com ascomunidades locais, trabalhando a conscientização das famílias e organizando aresistência; questionando judicialmente a execução do projeto, visto que eleapresenta diversas irregularidades; e dialogando com a sociedade sobre o queestá ocorrendo em Apodi,demonstrando os desmandos com o meio ambiente e a vida da população.

IHU On-Line – Gostariade acrescentar algo?

Antonio Nilton BezerraJúnior – Gostaria de dizer que essa luta não é apenas doscamponeses e camponesas de Apodi.A luta em defesa daChapada do Apodi se tornou uma luta nacional de todos aqueles eaquelas que defendem a dignidade das comunidades camponesas. Essa luta estásintonizada com outras grandes lutas que estão sendo travadas pelo Brasil emdefesa dos territórios camponeses.