segunda-feira

ENTREVISTA: Agronegócio causa estrago.


Dr. Raquel Rigotto - Imagem Retirada da Internet

Considerada uma das principais pesquisadoras das consequências ocasionadas pelo agronegócio no País, a médica e doutora em sociologia Raquel Maria Rigotto, da Universidade Federal do Ceará (UFC), em entrevista exclusiva ao JORNAL DE FATO, faz uma dura crítica ao modelo de produção agrícola adotado pelos grandes empresários no Brasil, destacando a Chapada do Apodi, que engloba o Rio Grande do Norte e Ceará, e chama a atenção para os graves problemas na saúde pública causado pelos agrotóxicos usados nos cultivos nestas regiões. "O Brasil vem sendo o campeão mundial de consumo de agrotóxicos desde 2008".
Raquel Maria Rigotto esteve no dia 29 de março ministrando palestra para os agricultores no município de Apodi, tratando exatamente sobre os estudos que realiza na Chapada do Apodi (território cearense). Segundo a professora, o Governo Federal destinou mais de 100 bilhões para o agronegócio e apenas 16 bilhões para a agricultura familiar. O que, segundo a pesquisadora, revela uma distorção perigosa do Governo Federal quando a política de governo tanto de saúde pública como de desenvolvimento regional.
Para a pesquisadora, o modelo de monocultura praticado em demasia no País é altamente prejudicial, pois força o uso de agrotóxico e contribuiu com o surgimento de pragas. Um exemplo de monocultura é a Serra do Mel, que tem mais de 30 mil hectares de pomares de cajueiro. Raquel Maria Rigotto destaca que o modelo do agronegócio praticado no Brasil não é brasileiro e só interessa financeiramente os grandes grupos estrangeiros e a indústria química.
DE FATO - De 2008 a 2009, ficou comprovado que o Brasil era o maior consumidor de agrotóxico do mundo, pela sua extensão territorial e sua vocação para a agricultura irrigada. É possível produzir com menos agrotóxico, melhorar este quadro?Raquel Maria Rigotto - Esta pergunta é muito inteligente, Cezar Alves. O Brasil vem sendo o campeão mundial de consumo de agrotóxicos desde 2008, num cenário que insere toda a América Latina, pelo papel que foi destinado a nosso continente pelos atores que conduzem a re- estruturação produtiva no plano mundial. Trata-se do papel de produzir commodities, especialmente agrícolas e agropecuárias, além da cadeia minério-ferro-aço. Estamos aqui voltando, neste momento, as nossas riquezas de solo, ar, água, força de trabalho humano, biodiversidade para produzir commodities para o mercado internacional: a soja, a cana-etanol, eucalipto-celulose e, aqui em nossa região, as frutas, o camarão, incluindo aí também a carne de boi na Amazônia. Tem mais cabeça de boi do que habitantes no Mato Grosso, por exemplo. Além disso, há a questão do modelo escolhido para esta produção.

DE FATO - Que modelo é este?
Raquel Maria Rigotto - Temos aí o modelo da monocultura, que começa destruindo a biodiversidade, desmatando, tirando o que tem de vegetação. Então todo o equilíbrio do ecossistema, que garante a sua saúde, se rompe. Desmatam o cerrado, a caatinga, a floresta amazônica ou a mata atlântica, e instalam ali 3 mil, 4 mil hectares de um monocultivo, e esta é uma condição indutora do surgimento de pragas. Neste ambiente artificial, não há condições de resistir como acontecia quando a biodiversidade estava preservada. Além disso, é um modelo que chamamos de químico-dependente, ou seja, é um modelo viciado em agroquímicos.

DE FATO
- Por quê?Raquel Maria Rigotto - Porque, nestas condições, ele precisa dos agrotóxicos, ele precisa de fertilizante químico em grandes quantidades. Assim que os atores hoje deste modelo de desenvolvimento do campo, são não só aquele latifundiário, dono da terra, mas também a indústria química, o capital financeiro, a ciência e tecnologia, o aparato jurídico institucional, e até mesmo político legislativo. Temos uma bancada ruralista no Congresso Nacional para defender este modelo. Então é este conjunto de elementos que levou o Brasil a esta triste condição, que a partir de 2008 até 2010 somos campeões internacionais de consumo de agrotóxicos: quase cinco quilos de veneno por habitante/ano.

DE FATO - Existe algum trabalho sendo feito pela comunidade científica para reduzir o agrotóxico usado pelos grandes e também pelos pequenos produtores?
Raquel Maria Rigotto - A comunidade científica tem pelo menos duas posições em relação a isto. Nós temos instituições de pesquisa como a Embrapa e universidades também, que estão gerando conhecimento para facilitar e ampliar este modelo do agronegócio. No caso da Embrapa há a estimativa que 95% dos recursos financeiros e humanos estariam voltados para isto e apenas 5% estariam voltados para a outra vertente, que seria o investimento no resgate dos saberes populares e tradicionais dos camponeses, somando-os com os conhecimentos ecológicos atuais, para o avanço daquilo que chamamos da transição agroecológica, para caminhar rumo a um outro modelo de produção no campo, não só em relação ao uso dos agrotóxicos. Não se trata apenas de substituir o veneno químico por veneno biológico, mas de organizar a produção voltada para o acesso equitativo aos bens naturais como a terra, a água e a própria biodiversidade. O acesso ao conhecimento sobre a terra, a produção, aos recursos públicos de financiamentos, que é um tema muito crucial hoje...

DE FATO - Inclusive, o governo Lula destinou muitos recursos para os grandes produtores e pouco para a agricultura familiar. Qual sua opinião com relação a isto?
Raquel Maria Rigotto - Os dados dos últimos dois anos, por exemplo, mostram que R$ 100 bilhões foram investidos para financiar o agronegócio enquanto cerca de R$ 16 bilhões foram voltados para fortalecer políticas ligadas à agricultura familiar. Em 2007 e 2008, a União gastou quase R$ 1,5 bilhão com a securitização das dívidas agrícolas. Em 2009, foram utilizados outros R$ 842 milhões. São dimensões de recursos públicos distribuídos com extrema desigualdade, especialmente se a gente levar em consideração que 70% do alimento que chega à mesa do brasileiro vem da agricultura familiar.

DE FATO - Existe um percentual já calculado de quanto por centro de produtos produzidos com agrotóxicos são consumidos pelo brasileiro?
Sim. O Ministério da Saúde, através da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, tem um programa cuja sigla é PARA (Programa de Análises de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos). Eles coletam amostras de diversos alimentos nos supermercados e analisam os resíduos de agrotóxicos presentes neles. Para 2010, por exemplo, foram monitorados 20 frutas, legumes e verduras, e foram encontrados 29% de resultados insatisfatórios, sendo que 23% apresentavam princípios ativos inadequados para aquele cultivo. É uma situação crítica, que retrata muitas dificuldades do pequeno agricultor no Brasil.

DE FATO - Por quê?
Raquel Maria Rigotto - Porque isto reflete uma situação de alguém que enfrentou uma praga no seu cultivo; que, com medo de perder sua produção, procurou o balcão de uma loja que vende veneno - porque não tem acesso a uma assistência técnica qualificada enquanto política pública; comprou o veneno que o vendedor indicou - porque não passa por um receituário agronômico. A legislação sobre o receituário agronômico não tem sido cumprida. Então você tem aí dinheiro e compra o veneno que você quiser. Não precisa de mais nada. Se você quiser comprar 100 quilos de classificação toxicológica 1, que é extremamente tóxico (com 3 gramas dele você mata um adulto de 70 quilos), você compra e não há dificuldade nenhuma. Então aí o pequeno agricultor comprou o que vendedor indicou para ele, usou no seu cultivo, contaminou o alimento e isto vai atingir o consumidor, contaminou a ele mesmo e sua família, contaminou o solo e a água. Quem ganhou com isto? Só a indústria química e a loja de veneno. E esta é uma situação que ainda está acontecendo no nosso País.

DE FATO - E a Legislação? O que ela prevê quanto ao uso de agrotóxico?
Raquel Maria Rigotto - A Legislação federal sobre agrotóxico data de 1989, regulamentada por um decreto de 2004. E ela é fruto do contexto de mobilização da Assembleia Nacional Constituinte, com toda a efervescência do País no período pós-ditadura. E a Legislação atribuiu aos Ministérios da Agricultura, Meio Ambiente e da Saúde, o controle desta situação dos agrotóxicos e de forma análoga aos órgãos estaduais de agricultura, meio ambiente e saúde. Então nós temos uma legislação com aspectos positivos, mas que não tem sido respeitada em várias dimensões. Mas ela se baseia no que chamamos de paradigma do uso seguro, ou seja, a suposição de que, garantidas e algumas regras e limites, você poderia usar os agrotóxicos - que são biocidas, feitos para matar - você poderia utilizá-los com segurança. Estas condições que estão descritas na Legislação infelizmente não têm sido cumpridas, e o próprio Censo Agropecuário de 2006 mostra isto. Uma delas é o receituário agronômico: é preciso uma receita de um agrônomo, onde estaria discriminado o nome da propriedade e localização, o nome do proprietário, o cultivo, o diagnóstico da praga, o princípio ativo indicado para tratá-la, a dose, a segunda opção de tratamento caso seja necessário, os cuidados que ele tem que ter durante a aplicação, o número de aplicações, o período e os equipamentos... Tudo isto deveria vir no receituário agronômico. Só que isto praticamente não existe.

DE FATO - O que sua pesquisa constatou?
Raquel Maria Rigotto - Nós entrevistamos todos os proprietários de lojas na região da pesquisa. O que eles nos disseram? Que tem um agrônomo sim, e que uma vez por mês ele passa na loja e assina todas as receitas daquilo que já foi vendido. Ou seja, ele sequer viu o agricultor. Este é um exemplo de que a Legislação não é cumprida. Outro exemplo é que não temos no Ceará nenhum laboratório público em condições de analisar a água de um rio para dizer se ali tem veneno ou não, se está contaminado ou não. E esta é uma das atribuições do órgão estadual de meio ambiente.


DE FATO - E no Rio Grande do Norte?
Raquel Maria Rigotto - Aqui no Rio Grande do Norte, nas universidades e centros tecnológicos, temos conhecimento de estudos realizados por séria pesquisadora. Mas, enquanto laboratórios com capacidade de atender a toda a demanda de monitoramento, vigilância e fiscalização, acredito que a situação seja semelhante a do Ceará. Isto para mostrar que as condições para o uso seguro não estão sendo respeitadas.

DE FATO - Qual a ligação dos produtores do Ceará com os produtores do RN? O que está acontecendo lá pode estar acontecendo aqui?
Raquel Maria Rigotto - Olha, quando nós iniciamos a pesquisa, viemos aqui para conhecer, identificar quais são as empresas, os cultivos, se já havia estudos. Descobrimos que todas as embalagens de agrotóxicos lá do Ceará vêm para Mossoró. Aqui existe uma unidade de processamento de embalagens como exige a Legislação. No Ceará nós não temos. Então nós estamos exportando resíduos tóxicos para vocês, daqui do Rio Grande do Norte. Mas depois a gente não prosseguiu num estudo aqui nesta região, porque nosso objetivo junto ao CNPQ e ao Ministério da Saúde era estudar o Ceará. Mas observamos que existe uma forte semelhança porque a Chapada do Apodi é uma unidade territorial única, que está dividida pela fronteira geopolítica. Mas na prática é um mesmo território. No Rio Grande do Norte, com mais antecedência, as mesmas empresas com os mesmos cultivos de frutas para exportação. No Ceará isto começa a partir do ano 2000 e aqui no RN este trabalho começou bem antes e por isto a gente veio no começo exatamente para aprender com a experiência de vocês. Fomos convidados a estar hoje no "Seminário Impacto do agronegócio/agrotóxicos na saúde, no trabalho e no ambiente" organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Apodi, CPT-RN, ASA-Potiguar, CUT, etc. em parceria com o Núcleo Tramas-UFC e o Grupo de Pesquisa Marcos Teóricos Metodológicos Reorientadores da Educação e do Trabalho em Saúde da Uern. O objetivo foi socializar alguns resultados da nossa pesquisa quanto aos impactos do agronegócio para a saúde, o trabalho e o ambiente de comunidades rurais do Baixo Jaguaribe no Ceará. Ficamos animados hoje com a presença do Cerest regional e da Vigilância de Mossoró; do PSF e da Secretária de Saúde de Apodi; da Renap; do Bispo Dom Mariano, da Ufersa, etc, no seminário. Os movimentos sociais, trabalhadores rurais e entidades da região estão atentos ao problema dos agrotóxicos, que poderá ser agravado com a instalação do Perímetro Irrigado Apodi, pelo Dnocs, possibilitando a expansão do agronegócio na região, a exemplo do que já ocorreu em Baraúna e Assu, como evidenciaram as comunidades presentes. Hoje os agricultores familiares de Apodi mostraram que desenvolvem atividades agroecológicas como a apicultura, entre outras e demonstraram que não querem e não precisam do agronegócio, mas de incentivos na agricultura familiar. A contribuição de pesquisadores e professores universitários do RN amplia as possibilidades de informação adequada dos trabalhadores e moradores, que é um direito.

DE FATO - Qual cultivo preocupa mais os pesquisadores?
Raquel Maria Rigotto - Os cultivos em monocultura em grande escala, ou seja, o agronegócio.


DE FATO - A Serra do Mel foi projetada e instalada na década de 70 e lá plantada quase 2,5 milhões de pés de cajueiro em 30 hectares. Hoje deve haver 4 milhões. Isto é um exemplo a não ser seguido?
Raquel Maria Rigotto - Sim. É um exemplo de monocultura muito intensa e que certamente preocupa. No Ceará a gente acompanhou melão, abacaxi e banana.

DE FATO - Considerando a forma de produção, estes três preocupam muito?
Raquel Maria Rigotto - Preocupam muito, especialmente do ponto de vista da saúde e do meio ambiente, tanto dos trabalhadores como das famílias que vivem na região. Cada um com sua especificidade. O melão, por exemplo, são mais de 30 princípios ativos diferentes de veneno utilizado para controlar as pragas. Na banana, as pragas são em menor número. Mas existe um problema muito sério, que são os 'organofosforados' usados para matar uma praga chamada "moleque", que causa a broca do rizoma. E tem o problema da pulverização aérea que para combater um fungo, que causa a doença chamada "sigatoka amarela". A negra não chegou por aqui.


DE FATO - E o que os empresários fazem numa região como a Chapada do Apodi, que tem semelhança em quantidade plantada com o Vale do Açu, para conter estas pragas?
Raquel Maria Rigotto - Na chapada do Apodi são 2.950 hectares de cultivo de banana, o que em 10 anos, com uma média de 6 a 8 pulverizações por ano, eles já despejaram 4.425.000 litros de calda tóxica sobre a Chapada do Apodi, onde estão muitas comunidades.

DE FATO - Com tanto veneno jogado sobre estas propriedades cultivadas e inúmeras comunidades, quais as consequências para a saúde humana em curto e em longo prazo?
Raquel Maria Rigotto - Nós temos um primeiro comprometimento importante que é da segurança alimentar das famílias camponesas, na medida em que a terra está sendo concentrada, em que os camponeses estão perdendo terra, estão virando empregados do agronegócio, eles já não produzem mais seu milho, feijão, macaxeira. Eles já têm que comprar isso. O que eles produzem no agronegócio eles não têm coragem de comer, pois eles vêm à quantidade de veneno que aquele produto tem. Então tem um comprometimento da segurança alimentar das famílias camponesas. Existe outro grupo importante de impacto sobre a saúde que diz respeito ao processo de migração e de alteração do modo de vida. Por exemplo, o cultivo do melão, que vocês têm aqui na região do Rio Grande do Norte também, ele é um cultivo sazonal. Ele só é feito na época do ano que não chove, ou seja, no segundo semestre. No nosso caso lá no Ceará, de repente a empresa abre a contratação de 4 mil homens, que vem de Mossoró, da Paraíba, do Piauí, do sul do Ceará para atender a esta demanda de emprego por um período de 4, 5 ou 6 meses. Homens que vêm sem suas famílias. Atrás deles vem a rede da prostituição. No distrito de Lagoinha, em Quixeré (CE), aqui vizinho do RN, existe uma elevação enorme no índice de gravidez na adolescência. Três vezes mais do que o Ministério da Saúde tem encontrado em média no Brasil. As doenças sexualmente transmissíveis, inclusive a Aids, aumentando muito. As drogas ilícitas e as lícitas também aumentam muito. A violência doméstica, a violência contra a mulher, que as famílias todas ficam desestruturadas com este processo. Outro ponto é o sofrimento psicológico que advêm disto, a depressão, a tristeza, o suicídio.

DE FATO - E no que diz respeito somente aos agrotóxicos?
Raquel Maria Rigotto - Nós temos dois grandes grupos de impactos dos agrotóxicos sobre a saúde: o primeiro são as intoxicações agudas, que acontecem logo após exposições a concentrações significativas de agrotóxicos por um período curto tempo - que é uma experiência que a vários trabalhadores que participaram hoje (quarta-feira, 29 de março) conosco do seminário já teve. No nosso estudo epidemiológico no Ceará, que teve uma amostra de 545 trabalhadores examinados, 32,1% deles tinham relatos de episódios de intoxicação aguda em algum momento de sua vida. É aquele caso que o cidadão pulveriza e começa a sentir tonteiras, náuseas, vômitos, dor de cabeça, tontura, irritação de olhos, garganta, pele, fraqueza, tremores, etc...

DE FATO - O Equipamento de Proteção Individual, o EPI, previsto na Legislação, não evita estes tipos de reações?
Raquel Maria Rigotto - A gente não pode, Cezar, considerar que o EPI seja a medida de proteção eficaz e suficiente. A própria Legislação trabalhista coloca que o equipamento de proteção individual deve ser utilizado enquanto se implantam as medidas de proteção coletiva; ou em caráter complementar às medidas preventivas para controlar totalmente o risco; ou em caráter emergencial, quando acontece um vazamento, se coloca uma máscara e vai fechar este vazamento. Mas basear a prevenção no equipamento de proteção individual é um erro técnico e legal, muito frequente e comum. A maioria dos profissionais de saúde acredita ainda neste mito do EPI, infelizmente - é o senso comum cultivado pela própria indústria fabricante de EPI. Mas existem várias teses provando o contrário. Por exemplo, um macacão, que faz parte do equipamento de proteção individual, este se encharca de veneno durante o dia porque estava pulverizando com o pulverizador nas costas e vazou. Se no dia seguinte o trabalhador veste novamente este macacão e começa a suar dentro dele, ele funciona como uma compressa de veneno sobre a pele, já que o veneno é absorvido também pela pele, além da via respiratória e da digestiva. Então o EPI não resolve, e às vezes pode ampliar o risco.

DE FATO - E tem também os efeitos crônicos dos agrotóxicos nas pessoas?
Raquel Maria Rigotto - Aí temos um amplo leque de efeitos e quanto mais se estuda mais se descobre. Então o primeiro grupo que sempre nos preocupa muito são os cânceres e hoje não há dúvidas de que a questão ambiental é responsável por 30% a 70% dos cânceres. E nós temos vários cânceres que são diretamente relacionados aos agrotóxicos. Como, por exemplo, a leucemia mielóide aguda, os linfomas não-hodgkin. Agora, são doenças que vão aparecer 5, 10 e até 20 anos depois da exposição. Então, nem sempre a ponte é feita para descobrir a origem do câncer - aquele tempo que trabalhava com agrotóxico ou morando perto de uma fazenda de produção agrícola.


DEFATO - E quanto aos nascimentos de crianças com problemas de formação no útero?
Raquel Maria Rigotto - Neste ponto, temos as malformações congênitas que podem ser causadas também por agrotóxicos. Bastante discutida hoje, por exemplo, é a chamada criptorquidia, que é quando o bebê do sexo masculino nasce com os testículos ainda na cavidade abdominal. Eles não descem para a bolsa escrotal. Isto tem ligação com o agrotóxico e tem sido cada vez mais frequente em áreas de exposição a agrotóxicos. A infertilidade masculina também tem ligação com os agrotóxicos: eles alteram o número de espermatozóides, a mobilidade deles, a porcentagem de espermatozóides anormais. Nós temos distúrbios endócrinos causados pelos agrotóxicos, já que eles são capazes de imitar o comportamento dos hormônios sexuais. Eles entram no corpo, "enganam" as nossas células receptoras dos hormônios, como se fossem hormônios masculinos ou femininos, e isto contribui para a puberdade precoce das meninas, por exemplo, entre outras alterações.

DE FATO - E problemas hepáticos são frequentes?
Raquel Maria Rigotto - Na nossa pesquisa no Ceará, entre os trabalhadores da monocultura do abacaxi, 53% deles estavam com alteração nas provas de função hepática, ou seja, o fígado funcionando mal. O fígado funciona como um laboratório químico no corpo, e é muito sobrecarregado pelos venenos. Tivemos inclusive o caso de um trabalhador jovem e sadio, desta mesma empresa, que adoeceu em agosto de 2008 e em novembro faleceu com uma doença hepática tóxica, depois de trabalhar por 3 anos de meio no almoxarifado químico.

DE FATO - E o parto prematuro e o nascimento com baixo peso, que tem acontecido com muita frequência nesta região, também têm ligações com exposições aos agrotóxicos dos pais, no caso da mãe?
Raquel Maria Rigotto - Tem sim. O parto prematuro, nascimento com baixo peso e o aborto também são relacionados aos agrotóxicos, mas é claro que existem outras causas. É preciso que o profissional de saúde esteja alerta quanto a isto, para que sejam feitas perguntas a respeito do trabalho e ao ambiente em que aquela pessoa vive, exatamente para poder fazer estas pontes e, não só fazer o tratamento adequado, como também dar visibilidade ao problema e tomar as medidas preventivas necessárias.

DE FATO - Mossoró tem 260 mil habitantes e polariza outras 40 cidades. Tem uma única maternidade, onde são feitos 600 partos mês, sendo que 30 prematuros. Só temos 3 leitos de UTI neonatal e nenhum leito de UTI pediátrico. Isto considerando os hospitais públicos e privados. Isto agrava o problema?
Raquel Maria Rigotto - Este problema fica agravado quando não há leitos de UTI pediátrica disponíveis para oferecer cuidados a estas crianças. Meu Deus!

DE FATO - Existe estudo que mostre alguma relação com o desenvolvimento intelectual das crianças ao agrotóxico?
Raquel Maria Rigotto - Bem lembrado. As pesquisas estão demonstrando as dificuldades de aprendizado das crianças na escola, a hiperatividade, a falta de concentração, o comprometimento da memória, que estão relacionadas a alguns tipos de agrotóxicos.

DE FATO - Obviamente tudo isto gera uma demanda de serviços novos na rede de saúde pública. O SUS está preparado para este tipo de atendimento?
Raquel Maria Rigotto - Então, desde o processo de reforma sanitária, quando o Sistema Único de Saúde - SUS - foi construído, também o campo da Saúde do Trabalhador se fortaleceu no SUS. Teve um papel importante no modelo que seria adotado a partir de então. De forma que a gente tem uma legislação de Saúde do Trabalhador no SUS e um conjunto de atribuições muito rico, com ações desde o Programa de Saúde da Família, responsável pela atenção básica, os Centros de Referência em Saúde do trabalhador (Cerest), a Vigilância em Saúde, que também tem um papel importantíssimo nisto; a CIST, que é a Comissão Intersetorial de Saúde do Trabalhador que deve fazer parte dos Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde. Também no campo da Saúde Ambiental esta política vem sendo construída. Nós tivemos em 2009 a primeira Conferência Nacional de Saúde Ambiental para tratar destes assuntos. Porque o SUS precisa identificar e dar resposta às novas necessidades de saúde das populações expostas a estes contextos de riscos. Não se pode prosseguir cegamente no tradicional pacote de programas de hipertensão, diabetes, hanseníase, tuberculose, sem se dar conta de que o território está passando por profundos processos de transformação.

DE FATO - Doutora, realmente existem muitos mecanismos previstos no SUS que beneficiam o trabalhador rural, mas na prática...
Raquel Maria Rigotto - Infelizmente, há uma enorme distância entre aquilo que está previsto que o SUS faça e aquilo que ele vem conseguindo fazer na maioria dos locais do País, com honrosas e homenageadas exceções. Temos aí uma dificuldade muito grande. Os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador que ainda não conseguiram estabelecer um diálogo direto e profundo com os movimentos dos trabalhadores, sindicatos, trabalhadores do campo, informais: ouvir estes trabalhadores, saber quais são os dramas que estão vivendo e o que eles precisam que o SUS faça em termos de prevenção, de vigilância, de informação, de acessos aos seus direitos, de garantias mesmo a saúde. Então ainda temos muita coisa pra crescer, inclusive na articulação entre as ações e políticas de Saúde do Trabalhador e as de Saúde Ambiental, que ainda estão muito separadas. Isto é artificial, porque na realidade são os processos de produção e consumo que delineiam o perfil de saúde-doença dos grupos populacionais.

DE FATO - O seu trabalho de pesquisa junto aos trabalhadores do agronegócio pode terminar por contribuir com um aprimoramento do SUS para atender o trabalhador rural?
Raquel Maria Rigotto - Eu espero que nosso trabalho de pesquisa possa estar ajudando o SUS a se encontrar no meio de tantos problemas que existem aí pedindo a abordagem dele na Saúde do Trabalhador e na Saúde Ambiental. Por exemplo, o Cerest poderia integrar a questão ambiental, e passar a ser Ceresta, não?

Por: Cezar Alves
FONTE: Jornal De Fato.

Um comentário:

Alan Martins disse...

Pread@s amig@s do notícias do campo, quero parabenizá-los pelas constantes notícias relacionadas ao uso de agrotóxico em nosso país.
Onde isso vai parar???
Soube que a palestra de Raquel Rigotto foi excepcional. Pena que não pude estar presente, mas meu grupo de pesquisa estava representado pelo professor Jorge e por 3 alunas bolsistas.
Em tempo, meu blog que vocês gentilmente referenciam mudou de endereço, se possível corrijam: http://professor-alanmartins.blogspot.com/